quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Insônia

Não é só uma sensação.
O dia acabou, e você sabe que não o viveu o suficiente.
Você não o viveu.
Não adianta não dormir.
Ele se foi.
Não há pestanas abertas nem olhos abertos que o segurem.
Você já o perdeu.

Fim

Finda o dia
Fim do dia

Fim do dia
Finda a vida

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dedicatória

A tudo o que virou hipótese para mim
e a tudo para o qual virei hipótese,
deixo um "se" inquiridor.

O homem do livro

Escolheu para extensão de seu corpo o livro. Para onde quer que vá ou com quem quer que converse, é esse o objeto que ele leva consigo. Chegue à casa dele, para uma visita. Em algum momento, ele vai trazer um livro para a conversa, falar de alguma curiosidade que encontrou no texto ou até vai ler para você uma passagem que considera importante e, por isso, merecedora de ser dividida com outros.
O homem do livro, em tempos de mundo virtual, aldeia global, não escolheu nada midiático para interagir. Sua extensão é o livro. O que talvez até seja uma pena, porque o homem do livro acumulou tanto conhecimento ao longo de sua vida que seria rico que outros, por meio das redes sociais, pudessem ter acesso a essas tantas e tantas histórias.
O homem do livro se interessa por história, literatura, religiões, genealogias, ciência, astronomia, quadrinhos, filmes, música. Não só se interessa, pesquisa a respeito de tudo o que lhe interessa. Pesquisa, lê e escreve. Com a internet, descobriu que pode adquirir mais livros, de edições diferentes, antigas, obras com as quais teve contato na infância e muitas outras. A internet lhe abriu muitas portas de pesquisa, mas o papel continua sendo seu mundo preferido.
Ele nunca saiu de seu país, mal gosta de sair de sua casa. E não sente falta de descobrir outras paisagens. Pelos livros, fez viagens até mais longas e enriquecedoras que as que fazem os que caem na estrada. Para ele, lhe basta ter nas mãos Machado, Rosa, Alves ou os muitos outros que ele admira.
O homem do livro é meu pai. Uma pessoa de nome diferente, inventado pelo pai dele. Tímido, o homem do livro tem até um pouco de vergonha de seu nome, preferiria se chamar José, para não ser notado. Apesar do amor pelos livros, nunca se descuidou dos deveres: trabalhar, cuidar da família, passar valores, detalhes que foram tão importantes para a formação do nosso caráter, que fizeram com que nossa família se mantivesse unida, firme, mesmo com nossas tantas diferenças.
Eu não me lembro de não ter visto meu pai com um livro na mão em pelo menos um momento de nossos encontros ou da vida que dividimos. Pequena, eu o via por horas e horas diante do armarinho recheado de livros. Foi sua primeira biblioteca. Hoje são muitos mais livros, e ele continua incansavelmente lendo e alimentando, com isso, sua impressionante memória.
Se eu gosto de ler, escrever, pesquisar, ouvir histórias e músicas, saber mais de história, ter um pouco de senso de justiça social e de humanidade, se eu sempre busquei ter mais conhecimento, devo isso, em muito, ao meu pai, o homem do livro. Se a vida tivesse lhe dado as oportunidades que ele e mamãe me permitiram ter, tenho certeza, o homem do livro teria sido um melhor jornalista, historiador (ou professor de história) e revisor que eu fui ou tenho sido. Porque é nato tudo isso no homem do livro, um intelectual à moda antiga.
Homem do livro, feliz Dia dos Pais! Obrigada por ter sido minha primeira referência intelectual. Isso moldou todo o meu caminho.

domingo, 3 de agosto de 2014

Cercada

Pintando um quadro, certamente, agora, eu pintaria palavras transformadas em monstros. Vindas do céu, da terra, dos ares, das águas, de todos os lugares. Com bocas gigantes, dentes enormes e afiados. Todas em cima de mim, arrancando meus pedaços, minhas pernas, meus braços. Atingindo meu coração, de forma certeira, como os mísseis que matam crianças do outro lado do mundo. Neste momento, um míssil acertou meu coração novamente. Uma bomba abateu minha cabeça. Já não posso mais continuar. As palavras me mataram.

sábado, 2 de agosto de 2014

Fluindo

De uma forma nunca pensada
ou realizada
Hoje uma crueza fixada
(ou uma frieza acostumada?)

Do imaginado
Hoje possível
O inesquecível
Hoje nem lembrança
Da ex-presença
Hoje nem ausência

Os sentidos
Não sentidos
Se já tidos
Se vão com os idos
Nem percebidos
Como nisso convertidos?

É tão fácil
Não sabia
Se foi missão
Hoje é água fria
O chegar é como o ir
Natural
Vida real

sábado, 19 de julho de 2014

Inversos

Eu te amo,
cada vez mais fácil boca pra fora,
cada vez mais difícil coração adentro.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Viaduto no caminho da vida

Andei bisbilhotando seu Facebook. Jornalista tem dessas coisas. Até te peço desculpa, mas imagino que o que você deixou lá era para ser visto. Senti que você era uma pessoa que não tinha muita vergonha da vida, de curtir com seus amigos. Até soube que você gostava muito, muito de dançar. Axé e pagode, acho. E hoje, hein? Era dia de ir para a Fan Fest, comemorar a vitória do Brasil (ufa!) contra a Colômbia. É, estamos na semifinal, com muito custo. Joguinho suado, disputado, faltoso, encrenca. Enfim, estamos.
É motivo de alegria.
Seria. Não, não é motivo de alegria, não como deveria ser. A seleção não tem culpa de nada, o futebol, os jogadores. A gente sabe das coisas ruins que rolam por trás, o que não vai fazer com que a gente perca uma paixão que vem com a gente de berço, um dos motivos de nos mobilizarmos tanto e chorarmos de alegria e de tristeza. O futebol não tem nada com isso. Nem a Copa.
Quem tem a ver com isso, com a sua ausência nessa comemoração é gente que não liga para ninguém. São essas pessoas que querem só uma coisa: dinheiro. Meu Deus! Mas já não têm o bastante? Têm, mas sempre querem mais. Mas precisam colocar o dinheiro acima de tudo? De outras pessoas, gente inocente, que trabalha, vive, leva a filha de 5 anos para o trabalho quando ela está de férias. De gente que, exatamente agora, queria estar dançando, tomando uma cervejinha, abraçando os amigos, rindo feliz porque viu seu país ir para mais uma fase da Copa do Mundo.
Isso não se concretiza. Não se concretiza porque, na véspera, encontra um viaduto no meio do caminho. Não é uma pedra. Uma pedra já poderia ter feito um imenso estrago. Mas era um viaduto (!). Sabe quanto ele pesa? Você não imagina. São 2.500 toneladas. Isso tudo em cima de uma avenida, de carros, de gente, de vidas, de famílias, de felicidade, de uma cidade que estava feliz. Agora, como ser feliz de novo?
A vida segue. A gente tem de tentar. Sorrir com a cidade, acreditar que vai haver justiça. Que alguém vai responder pelo crime, crime mesmo, que te impediu de ver o gol bonito do David Luiz e a emoção do Thiago Silva. Ou o aperto que passamos depois do pênalti que o colombiano James Rodriguez converteu em gol.
Foi suado, sofrido. Mais sofrida está a vida da sua família, do seu pai, que chorou muito, que chora e vai chorar por toda a vida. Da sua filhinha, que não para de perguntar por você. Ela está preocupada. Como vai ser? Quem responde por isso? Quem vai amenizar essa dor e preencher o buraco infinito que vai existir na vida dela pela sua falta, pelas imagens que a memória de criança vai levar de uma forma meio obscura, mas sempre associada à dor? Quem vai estar com ela quando ela passar mal à noite, quando estiver adolescendo, dando seus primeiros passos para a vida adulta, se apaixonando pela primeira vez, passando no vestibular ou vibrando com o primeiro emprego?
O que quem pensa em dinheiro, dinheiro, dinheiro unicamente não vê é isso. Hanna é uma das vítimas da ganância, da falta de comprometimento mínimo. Hanna e Charlys, os dois mortos, esmagados pelo viaduto da Pedro 1º, pedimos desculpas pela vida que tiraram de vocês. Não podemos fazer muito, mas estamos tristes, profundamente tristes. Há um rasgo na cidade, um viaduto, que parou a vida de vocês e marcou a nossa para sempre.

domingo, 29 de junho de 2014

Anestesia

Se eu tive um coração.
Se ele está partido.
Se ele está pulsando.
Se tudo isso,
por hora, não lembro.
Graças, anestesia da minha vida momentânea.
Há uma bola em campo.
Há 22.
Há milhões de olho.
Olhando, não olho para cá.
Vá para frente.
Coração.
Há outra direção.