segunda-feira, 2 de junho de 2014

Nome: especial Ocupação: amar Patrimônio: infinito

Eu vi seus olhos brilhando e, em seguida, ficando rasos d'água.
Eu vi seu sorriso entreabrindo. Meio sem graça, meio misturado com tristeza. Amor, saudade, dor.
Eu vi seus dedos correndo entre fotos. É tudo o que você tem? Ou é o mais importante que você tem?
Eu vi sua carteira magra, mas cheia de amor. Afinal, as fotos estão lá. Pequenas, manchadas, desgastadas, mas representando tudo o que você ama ou amou em sua vida. Tudo o que você consegue chamar de seu, porque amor é você.
Eu vi toda a dimensão em que você é especial, não importa que digam que você é especial por um milhão de outras formas.
Eu vi que você é especial porque tem uma pureza que eu não tenho, porque deixa o amor ter o real valor que ele tem, sem ter seu espaço roubado por tantas outras coisas (vida social, cultura, tecnologia, conflitos, trabalho, preocupações).
Eu vi que você me emocionou só por te olhar, só por te ouvir em toda a sua pureza, no seu amor genuíno.
Eu vi o tanto que eu preciso ser melhor, ao te ver sendo tão grande.
Seu nome é especial.
Sua carteira vazia, apenas com o símbolo do seu time do coração e as fotos 3x4 de quem você ama, é a carteira mais cheia que eu já vi.
Seu nome é especial, e você me ensinou muito.
Seu nome é especial, e eu nunca vou te esquecer.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Linha do tempo

Quando chegou, havia apenas três folhas. Em branco.
Início.
Meio.
Fim.
Quando olhou, não quis escrever. Nada.
Saiu.
Cresceu.
Viveu.
Quando voltou, as três continuavam lá. Cheias.
Ser.
Correr.
Morrer.
Indo, voltando, correndo, olhando, sendo, crescendo, vivendo, morrendo, fugindo, ignorando, gerundiando, não escapando. Todos os verbos levam ao fim.

domingo, 13 de abril de 2014

Ao meu amigo

Concentração vai embora
A saudade não deixa a gente pensar
Pensa só nas lembranças
A saudade é mandona
Não deixa a gente pensar
Não sem chorar

* Para Alécio Cunha

Pacman

O ano come muito rápido
O mês
A semana
O dia
A hora
E eu me sinto um inseto cada vez menor

sábado, 12 de abril de 2014

Ao Man oA

Nascemos no mesmo lugar, do mesmo lugar. Crescemos, nos criamos nele. Eu não sei quando e como esse lugar se separou tanto que nos distanciou de uma forma que me assusta e me dói. Porque eu queria te dizer que eu sempre quis te amar ou poder te amar de uma forma que você nunca permitiu. Que a gente não é capaz de reescrever a própria história, nem mesmo escrevê-la, mas eu gostaria. Que tudo fosse diferente. Que tudo fosse diferente. Que eu pudesse contar com a sua força, a segurança que você seria capaz de me passar e que eu nunca tive. Os sentimentos existem. Para todos os lados, eles existem. É comigo, é com você. Mas possivelmente de formas diferentes. Formas que eu jamais poderei decifrar. Dói não te ter como parte de mim. Mais que biológica, de sangue. Dói não te ter como parte da minha vida, do que é meu e é mais que físico, que é alma, amor, sentimento. O amor nasceu conosco. Não vai nos deixar, mas seria mais feliz se o seu e o meu se conhecessem.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Hoje eu te homenageio

Para cada pessoa que você perguntar, haverá uma resposta a respeito do motivo que a levou a ser jornalista. Uns não vão nem saber qual. Esse talvez seja meu caso. Por algum motivo, o jornalismo foi nascendo em mim até se transformar em uma das minhas grandes razões de viver. Muito por causa do meu pai, que não é jornalista nem sequer atua na área das ciências sociais ou humanas, mas tem paixão por ler. E não só. Por investigar histórias, por conhecer mais e por repassar informações. Foi por causa dessa paixão dele que eu descobri os livros bem cedo e de uma forma muito intensa.
Li livros, quadrinhos, revistas, outdoor, adesivos, placas de lojas, placas de carro. Tudo o que aparecia à frente. E jornal. Impresso, com tinta nos dedos. A família assinava o jornal Hoje em Dia – isso daí já foi iniciativa da minha mãe. Foi o que me fez conhecer o meu inspirador na carreira jornalística. É estranho, mas foi Roberto Drummond quem deu aquele “start” em mim: “opa, acho que quero ser jornalista”. Ele nem era mais, mas escrevia crônica em jornal diário e tinha um passado de certa expressão no jornalismo – chegou a ganhar o prêmio Esso duas vezes.
Suas crônicas expressavam coisas cotidianas, tão simples. Me dava uma curiosidade, todo o dia pela manhã, enquanto tomava café para ir à aula, ver sobre o que ele estava falando. Que passarinho ele tinha visto, que moça na rua, que olhos perdidos, que filme, que livro, que, que, que... Comecei a achar incrível, lindo, isso de ver as coisas e escrever sobre elas. Vai que alguém gosta? E se alguém gostar? Eu via que Roberto Drummond não era unanimidade, muita gente criticava seus textos, especialmente seus livros. Fui ler. Li uns quatro, cinco. Gostei de todos, mesmo os mais “bobinhos”. Conclusão: eu gostava dele. Apesar de detestar todas as vezes em que ele escrevia sobre o Atlético-MG.
A vida, irônica que é, iria me dar presentes num futuro muito próximo. Minha irmã entrou para a faculdade em 1997 e teve como colega de turma a filha de Roberto Drummond. Acabamos fazendo uma amizade passageira, conversávamos um pouco por telefone. No primeiro semestre de 1999, eu entrei para o curso de Jornalismo, na PUC Minas. Tinha um trabalho a fazer, uma entrevista com uma personalidade. Claro que escolhi Roberto Drummond, que havia ficado mais famoso nacionalmente por causa do sucesso estrondoso da minissérie “Hilda Furacão” (1998), na TV Globo, baseada em sua obra homônima.
A filha dele e a minha irmã foram a ponte para o encontro. Era a primeira entrevista da minha vida, com meu inspirador no Jornalismo. Levei gravador e um roteiro de perguntas. Ele me recebeu na área de lazer do prédio em que morava, na Savassi – claro, a região era sua paixão, uma das. Ele me recebeu tão bem e tão à vontade que acabei me desprendendo do roteiro de perguntas e aprendendo que a entrevista pode ser uma conversa, e é até bom que seja. Foi minha primeira lição prática.
Ao final, Roberto Drummond me deu um livro com bastidores e fotos da minissérie “Hilda Furacão”. Lindo, bem lindo. Eu, tímida ainda, não pedi para que o autografasse para mim. Três anos depois, meu inspirador morreu; seis anos depois, comecei a trabalhar no Hoje em Dia. Fiquei sem a assinatura no livro. Ficou a assinatura na vida.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não sou branca

Quando eu estava na faculdade de Jornalismo, havia um aluno peruano em outro curso da Comunicação Social. Era um doce de pessoa. E muito inteligente, muito capaz, havia ganhado bolsa para estudar lá, uma universidade particular brasileira, bem-conceituada. Fizemos uma amizade bonita no período em que estudamos juntos. Certo dia, ele me contou que sofreu discriminação por parte de um colega de sala. O outro colega havia dito: “vocês vêm para cá estudar de graça e tirar espaço nosso no mercado”. Doeu. Em mim e, principalmente, nele. Não tenho mais contato com esse amigo, mas imagino que lhe deve ter doído também ver as cenas de racismo do seu povo contra o jogador negro brasileiro, ontem, em Huancayo, no Peru. Ele já esteve do outro lado. Ele sabe que isso corta como punhal.
Essa foi uma das vezes em que eu vi a dimensão do preconceito, da discriminação bem perto de mim. É terrível, é sujo, é golpe sujo. É arma de quem não tem com o que lutar. De quem não tem dignidade para ir para um embate em condições de igualdade. Então, é simples, me coloco acima pelo critério cor-pele-cabelo. Imundo isso.
Sou considerada “branca” pela sociedade, mas mal sabem os que me consideram branca que, sim, tenho ascendência europeia – italiana e portuguesa –, mas também indígena. Pouco sei da minha história materna, mas minha mãe nos conta que uma de nossas bisavós foi pega no laço. Era uma índia. Também tenho ascendência negra. Meu avô materno era, como diz minha mãe, “negoaço”, uma forma antiga de dizer branco do cabelo crespo.
Com toda essa mistura, me consideram branca porque tenho pele clara, cabelos lisos, nariz afilado. Não, eu não sou branca. Eu sou resultado de uma mistura bonita, mas conflituosa, que nem sempre ocorreu com concordância de todas as partes. Eu tenho um passado indígena, no qual muitas mulheres sofreram abusos de brancos, de negros e de outros índios. Assim como indígenas peruanas devem ter sofrido. Além disso, no meu passado indígena, homens índios foram massacrados covardemente e ainda hoje são humilhados e tratados como inferiores ou “coitadinhos” em várias partes do mundo.
Eu tenho um passado negro, no qual mulheres também foram abusadas por senhores brancos e por reis negros e por tantos outros. Homens foram abusados, escravizados, humilhados, vendidos. E ainda hoje lutam por igualdade, por sua beleza ser admirada, por sua competência ser reconhecida, por não ter sempre o sufixo “negro” em tudo. Tenho um passado europeu, de pobres italianos e portugueses que, desesperançados em seus países, vieram para cá em busca de uma vida mais promissora e acabaram encontrando condições de trabalho similares à escravidão, com a diferença de uma baixa remuneração.
Por ser considerada branca, não posso dizer que sofri preconceito alguma vez na vida. O máximo que já sofri foi um bullying na escola, por não ser rica ou por ter piolho. Doeu? Sim, mas nunca como deve doer em um negro ser discriminado pela cor. Uma vez até já me discriminaram ao contrário: “você não é brasileira! Você não é negra...”. Ouvi isso dentro de um trem na Itália. Fiquei enojada. Doeu, mas não como deve doer em um negro ser discriminado pela cor. Repito isso para frisar que eu NUNCA vou saber o que é o preconceito racial, eu posso chegar perto dessa dor, mas nunca vou saber o que ela é realmente. Nem eu nem nenhum de meus amigos e familiares considerados brancos. Portanto, não é admissível que alguém “branco” tente minimizar o preconceito sofrido por um negro. Não é admissível. Não minimizem, por favor.
Branco, negro, índio, de que biotipo for, o passado da humanidade é marcado por vitórias, derrotas e lutas. Muito há do que se envergonhar, de todas as partes. Mas podemos construir uma história diferente, da qual não teremos vergonha no futuro. O começo para essa nova história é agir com igualdade, com irmandade, sem se sobrepor ao outro, sem sujar as mãos com a imundície do preconceito, da discriminação. É direcionar um olhar humano ao que é humano. É direcionar amor aos gestos, às pessoas, ao seu irmão de todas as cores. Que nossas lutas de agora e do futuro sejam em pé de igualdade, sem a mancha indelével do racismo. Irmãos peruanos, lamento pela parte de vocês que os envergonhou e que envergonhou o mundo. Tinga e demais jogadores negros do mundo, sua cor é linda e sua história é de orgulho. Vocês são vencedores.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O que reluz e é ouro

Os olhos eram de alegria, expectativa, ansiedade. Procuraram os outros, pediu que os olhassem. Conseguiu.
- Obrigada, com os olhos brilhantes.
- Pelo quê?, olhos brilhantes e interrogadores, sustentados por um sorriso um pouco sem graça, de canto de boca.
- Obrigada por me tirar da Terra, com os olhos mais brilhantes e felizes.
Quatro olhos brilhantes se encontraram. Encontro.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O sexismo nosso de cada dia


Era uma turma de amigos muito queridos. Todos falamos sobre todos assuntos, as mulheres sempre expressam seus sentimentos, suas histórias, suas opiniões sobre todos os assuntos normalmente, em quase todos os encontros. A turma fixa é de quatro mulheres e três homens, mas, no final de semana tratado aqui, havia de cinco a seis homens a mais e quatro mulheres a mais – essas pessoas de acréscimo eram flutuantes, então, não dá para contar muito. Foi uma confraternização em um sítio, de sexta à noite a domingo à tarde.
Churrasco, piscina, cerveja. Todo mundo se divertindo, contando caso, rindo à toa. Todos felizes. Pega copo, suja copo. Pega prato, suja prato. Pega faca, garfo, colher, suja tudo em seguida. Vai tudo para a pia. Quem vai lá para lavar? As mulheres. Em nenhum momento, os homens se ofereceram para lavar. Quem foi para o fogão para fazer o almoço de sábado? As mulheres. Só um dos rapazes é que se atreveu a ajudar a picar uns legumes para o vinagrete. Quem cuida de limpar e arrumar a mesa para servir o almoço? Mulheres. Por outro lado, quem foi para a churrasqueira? Os homens. Quem comprou a cerveja? Os homens. Quem cuidou de limpar a piscina? Os homens. Quem ficou com o controle do som? Os homens.
É um exemplo bobo isso, corriqueiro, do qual eu, você, todos participamos, mas que demonstra ainda como as tarefas são divididas de forma sexista. Por que os homens não podem ajudar a lavar as vasilhas? Por que as mulheres não podem se responsabilizar pelo churrasco? É humilhante para o homem ir para a cozinha? É uma afronta a mulher ir para o churrasco?
De certa forma e sem ser feminista, essa divisão das tarefas reforça uma estrutura patriarcal, que a gente até tenta, mas tem dificuldade em mudar. É muito sutil e, acredito, não é uma ação intencional. Quem está agindo assim não está sendo machista, está como se seguindo um fluxo natural. Existem poucas exceções, mas, como a palavra diz, é exceção. Nessa estrutura, as mulheres ficam nos bastidores, fazem o serviço "menor", que não aparece, escondidas na cozinha. Quem faz a linha de frente, o que aparece, o que tem contato com o externo é o homem.
É estranho e mais estranho ainda é como a gente participa automaticamente disso, como se fosse uma regra inviolável. As mulheres simplesmente vão para a cozinha, e os homens, para a churrasqueira. Nós, as mulheres, não deixamos de ser cúmplices nesse processo. Ajudamos a manter essa estrutura. Mesmo sem querer. E penso que a gente não queria que fosse assim ou que continuasse sendo assim.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Espelho inverso

Os espelhos poderiam não refletir somente a gente, a aparência da gente. Tinha de ter um jeito de ele mostrar o que sai lá de dentro. Seria, na verdade, um projetor. Iria pegar tudo o que tem dentro da pessoa e projetar, de dentro para fora. Assim seria mais fácil menos enganos. Há muitos enganos. O ovo não é duro nem branco por dentro.