terça-feira, 6 de novembro de 2012

Agora

Posso deixar para amanhã. Mas quem me garante que amanhã teremos de novo uma noite linda como a de agora?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ele e ela

- Estou bonita?
- Está. Linda.
Ela sempre perguntava, mesmo já sabendo qual seria a resposta. Ele sempre respondia o mesmo, ainda que não pensasse assim ou que não tivesse reparado qualquer diferença no que via dia a dia.
Ela queria o elogio sem a pergunta, espontâneo. Ele queria não ser perguntado sempre.
- Estou bonita?
- Está. Linda.
E foi assim sempre, até o dia em que deixaram de estar juntos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Senhora ausência

A gente só demora a entender (se é que entende um dia), amigo Drummond, que a ausência é a prova mais absoluta da presença. Se não fosse, ela, a ausência, não haveria. Não seria notada. Seria como viver anestesiado, com os sentidos afastados. Não é isso que ela provoca. A ausência não permite não ser notada. Pelo contrário, é forte em se fazer presente. É muito mais forte que o nada. Não há quem a despiste. Não há quem a engane. A ausência é força maior que a própria presença. Quase sempre.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Parece aborto

Tenho dois casais de amigos que tiveram a sorte na vida de nunca terem passado por separações. Só pode ser sorte. Conversamos sobre isso outro dia. Eles não sabem bem o que é ter alguém num dia, participando da sua vida, sendo seu cúmplice, seu melhor amigo, seu amante, seu companheiro, seu tudo, e não ter esse alguém no outro dia. É uma sensação muito esquisita. Parece que tudo é fake, que as coisas não existiram. Pelo menos não existiram assim. Como se, na sua cabeça, existisse algo muito rico, forte, consolidado, só que, na verdade, não é assim.
Não existe nada consolidado. Não existe nada tão real assim. Me rendendo ao clichê, lembro Marx, com a famosa frase "tudo o que é sólido desmancha no ar", claro que se referindo a outro contexto, no "Manifesto comunista", mas tão bem aplicado em tantas outras situações, inclusive, nos relacionamentos.
Tentando me colocar no lugar de alguém que nunca passou por isso para imaginar como é, eu comparo a separação com uma situação pela qual eu nunca passei, mas que também deve ser dolorida (quando não é provocada), o aborto. Acho que a separação é como um aborto. É aquela ruptura de uma vez, abrupta, inesperada, que mata, arranca de você uma coisa que você amava muito e que não tem como você fazer voltar. Acho que as duas sensações se parecem. Porque você é obrigado a se separar de algo valioso para você, mas não quer se separar dessa coisa. Tem que... Tem que... Tem que... Sem querer. É corte feito entre duas vidas. O corte do cordão umbilical entre mãe e bebê. É tudo sofrido.
Falei com esses dois casais que eles só podem ser pessoas muito abençoadas por não terem passado pela experiência da separação. E não é argumento dizer que eles têm menos experiência nesse campo. Acho o contrário, têm outro tipo de experiência, que é a de não se separar. Aliás, uma experiência rara entre nós, ainda mais na atualidade. Separação pode ser aprendizado. Mas é dolorido.É traumático. É difícil de superar.
Talvez a maior marca, a mais cruel marca, que a separação deixa é o medo da união. É o medo que ela te deixa de se unir a outro novamente. Para que unir de novo se vou me separar mais na frente? Esse medo vai ficando até que algo ou alguém muito impactante atravesse seu caminho de novo. Aí, já era! Volto ao recurso da citação, agora a João Bosco: "O amor quando acontece/ A gente esquece logo/ Que sofreu um dia". E não é assim? Oxalá!

sábado, 27 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Fórmulas

O mundo busca conselheiros para aprender alguma coisa sobre o amor ou sobre os relacionamentos. Martha Medeiros, Regina Navarro Lins, Miriam Goldenberg, Flávio Gikovate e até os coitados do Leminski, do Caio Fernando Abreu e da Clarice Lispector, que não queriam ser conselheiros de ninguém. Só queriam fazer poesia. E, se vissem hoje como são usados como fórmula, com certeza, ficariam revoltados. Não sei, mas acho que a última coisa que queriam é ser fórmula para alguém ou para alguma situação. Procuram-se tantos conselheiros porque o mais básico está de lado. E não adianta ler as fórmulas, se não há mudança de atitude. Não mesmo.

domingo, 7 de outubro de 2012

O fim da atriz

É dia da democracia. Cada um vai lá e dá um voto para alguém. No fim da noite, o eleito para governar a cidade, junto a 41 vereadores, novos e antigos. É o resumo da política do dia. Com ganhadores e perdedores. Na página policial, um luto. A atriz. Morta covardemente. Mas é dia de eleição. Festa para o prefeito reeleito. Quem vai se lembrar de uma atriz morta covardemente? Comemore-se a vitória. São mais quatro anos mandando na cidade. A segurança? É problema do estado. Infelizmente, a violência existe. Há fatalidades. Está fora do poder de atuação da prefeitura. Uma pena uma moça morrer assim. Mas o que se há de fazer? No discurso, resolve-se rapidamente a questão. Não estique. Não estique o assunto. É dia de festa. E assim se vai mais uma Beatriz. Não tem mais o rosto pintado nas ruas. Nada de "Rei Lear". O lúdico entristeceu. Não tem mais praia da Estação. O palco se apaga. Esse foi o seu grand finale, trágico, na madrugada das eleições. Não deu para você dar o seu voto, que não seria para o prefeito reeleito. Seria mais um protesto de sua parte. O grande protesto, no final, foi o fim da sua vida.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,12/2012/10/07/interna_brasil,326821/criminosos-que-mataram-atriz-durante-assalto-em-casa-seguem-foragidos.shtml

sábado, 6 de outubro de 2012

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Indomável

Pensamento não tem dono. É outra vida dentro da vida. Não aceita domínio. Por isso o lembrar quando se quer esquecer. Por isso o esquecer quando se quer lembrar.

O que protege

Braços fortes e robustez não protegem. Quer dizer, depende do ponto de vista. Se for físico, sim, servem. Mas força e proteção - de si e do outro - estão além do aspecto físico. Inteligência (de todos os tipos), astúcia, serenidade, esportividade, educação e leveza são protetores muitas vezes mais eficientes. Claro que não, se forem levadas em consideração as agressões físicas. Falo de proteções diante de perigos emocionais, ao interior, à autoestima, aos sentimentos. Talvez a arma secreta seja a paciência, escassa nos dias imediatos, mas importante como nunca foi. Quem a tem (ou a usa) pensa. E pronto.