domingo, 4 de março de 2012

Guardados e descobertas

Quem sou eu para falar de coisas guardadas! Porque vai gostar assim de guardar um trenzinho, viu?! Mas, mesmo sendo eu assim, admito que o guardado deve ser guardado para ser visitado, vez ou outra, para matar saudade do que foi bom ou para consultar experiências e informações, imagens, fatos passados. Só isso. Não para ficar vivendo aquilo que está lá, no guardado. Porque, se é assim, como a gente se dá a chance de ver algo novo?
Mesmo quando é uma trilhazinha pequenina, que parece não levar a nada, a gente tem de entrar para o meio dela, andar, andar, e, assim, ver onde é que ela vai dar. Ô, é o melhor que tem. Ainda mais quando a gente chega ao destino dessa trilha e vê que tem coisa boa, bonita lá. Mas, primeiro, a gente tem de acreditar nela, né?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Mainha desaparecido


Nunca a expressão "um trator passou por cima de mim" foi tão verdadeira para mim como na semana passada. O desaparecimento do amigo Mainha, o músico Vinicius Maia Carvalho, foi um atropelo verdadeiro. Inacreditável, incompreensível, assustador, triste. Você não acredita que isso aconteceu com uma pessoa próxima, uma pessoa doce, talentosa, bonita, que sempre estava com o mais aberto dos sorrisos para você.
Mainha é um excelente músico, canta e toca (e toca violão divinamente), além de ter um gosto musical irreprimível. Ele é parceiro musical da Marcinha (minha amiga-irmã Márcia Mazala) e faz parte dos grupos Nem Secos e Curimã. A gente se conheceu por causa dessa parceria dele com a Marcinha. É um menino muito bacana, mesmo! Por isso é tão difícil acreditar no que está acontecendo.
Não sabemos direito o que aconteceu com o Mainha, mas queremos muito reencontrá-lo. Ele sumiu na quarta-feira, 11 de janeiro, perto de Rio Casca, e parece que está andando ainda por Minas. Então, da forma como me é possível, estou tentando ajudar, divulgando, acionando os colegas, pedindo ajuda para que divulguem a informação e entrem em contato com pessoas que possam colaborar na busca. Aqui é mais um espaço de divulgação do paradeiro e de pedido de ajuda. Abaixo, tem links das matérias do Estado de Minas e da Alterosa para que tenham mais informações e a imagem do Mainha. Por favor, se puderem, divulguem para seus conhecidos. Muito, muito obrigada! Orações e pensamentos bons para ele também são valiosos, uma grande ajuda.
Beijos!

Estado de Minas: http://migre.me/7xN2Y
TV Alterosa: http://migre.me/7xN6l

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011/2012

Normal a gente fazer balanço do ano quando ele chega ao final. Eu entro nessa turma (apesar de não gostar de comportamento de "manada", como sempre me dizia meu querido amigo Noronha). Mas tem coisas que são inevitáveis. Para começar, meu 2011 foi muito, muito bom, graças a Deus. Profissionalmente, foi ímpar. Na vida pessoal, todas as situações pelas quais passei me trouxeram experiência. E isso a gente leva para sempre.
Amei, chorei, sorri, conheci, viajei (muito, muito, muito), perdi, ganhei. Não quero ficar parada no que perdi (apesar de ter perdido a convivência com pessoas que eu amava muito e que eram muito importantes na minha vida). Quero pensar no que eu ganhei, nas muitas pessoas lindas que entraram no meu caminho, especialmente no segundo semestre. Obrigada a todos. Vocês trouxeram colorido à minha vida que andava em preto e branco (não que o preto e branco não seja bonito). Ver vocês, o carinho de vocês, os olhares e os sorrisos amigos, abertos, sinceros, reluzentes, me fez me enxergar de novo. E como eu estava precisando disso! Sou eternamente grata!
Para 2012, em primeiro lugar, quero que todas essas almas continuem na minha vida (ai, Jesus, me atende nessa, eu sofro tanto quando tenho de me afastar de alguém...). Tenho, ainda, muitas coisas profissionais a realizar e uma lista de viagens à espera. Que eu tenha tempo e saúde para conseguir fazer isso.
Quero ser uma amiga mais presente, uma filha melhor, uma madrinha também mais presente e uma irmã mais amiga para minhas irmãs e meus irmãos, de sangue e de coração. Quero ser uma profissional ainda mais dedicada e quero organizar melhor meu tempo para conseguir trabalhar mais e mais. Quero ser mais paciente, mais madura, mais prestativa e mais humilde.
Quero que minhas pessoas amadas e meus familiares continuem sendo abençoados com muita saúde. Em 2011, assim como nos anos anteriores, não sofri (por mim ou por outra pessoa próxima) com problemas de saúde. Obrigada, Deus!
E quero, acima de tudo, continuar amando as pessoas com facilidade.
Um ótimo 2012 para todos nós!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Desciclo

Depois do des, vem o re. Depois, você tira os prefixos e tem todas as coisas novas.
Desconstruir, desfazer, desacreditar, desprender... As palavras que têm o prefixo des podem soar pesado, mas são importantes na vida da gente. Servem para que a gente compreenda que nada é certo, que a vida é dinâmica e que o mundo está girando.
O bom disso tudo é que, depois do des, a gente começa a ter aquela empolgação do re. Renascer, reestruturar, reacreditar, refazer, reestabelecer, reviver. Isso não é bom? É bom, sim, é sopro de vida, é saber que é possível viver as sensações boas novamente, mesmo que elas sejam diferentes das sensações vividas no passado. E, aí, o re traz aquele sentimento de, daqui a pouco, a gente não precisar mais dele. Porque a vida vai trazendo coisas novas: pessoas, livros, filmes, sentimentos, animais, vida.
Mas, também, acho que nada é assim tão separadinho. Se uma da parte da vida da gente está em des, outra pode estar em re e outra, sem nenhum prefixo. Será que a gente consegue evoluir tanto para enxergar isso um dia? É porque, quando estamos em des, a gente só vê isso. Esquece que os fluxos que vêm até a vida da gente trazem tudo, tudo, tudo ao mesmo tempo. O bom está sempre por perto, em uma coisinha ou outra, o não prefixo ou re estão circundando a gente e o não prefixo aparece todos os dias. Viver todos eles, enxergar o des, o re e o não prefixo é um aprendizado. Quero ele para mim!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Do Natal

O que eu penso do Natal é que é uma época linda, linda, linda. Tudo bem, muita gente não gosta porque é cheio, porque é consumista, porque todo mundo fica estressado. Isso tudo é verdade, mas é verdade também que as pessoas ficam mais sensíveis, mais emotivas, mais amorosas e mais carinhosas. Além disso, as ruas e as casas ficam lindas, enfeitadas. As crianças ficam sorrindo para os papai-noéis (mesmo que sejam aqueles feinhos de barba fake e barriga murcha!), ficam na expectativa do presente, de receber a visita do bom velhinho. Elas acreditam, têm fantasia, sorriem à toa. E tem coisa mais linda que ver o brilho das crianças quando elas estão felizes? E tem coisa melhor que acreditar e ter fantasia?
Além de todas as sensações gostosas que o Natal nos proporciona, a gente ainda fica com aquele friozinho na barriga de chegada do Ano-Novo. Ai, será que vai ser melhor (ah, mas este ano também não foi tão bom?)? Ai, quero fazer isso, quero fazer aquilo, etc. Sempre, tudo que é esperança é vida. O Natal é vida, o friozinho na barriga, a expectativa é vida...
Que neste Natal, tenha muita vida na vida de vocês e que vocês vejam muitas crianças sorrindo para papai-noéis de barba fake e barriga murcha!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ainda sobre pássaros

Como a história dos pássaros vem rendendo, peço licença ao Rubem Alves para publicar este lindo texto dele (ao qual me referi no primeiro texto, "Que pássaro?"). Vale muito a pena ler, gente. É lindo! Espero que gostem!

A menina e o pássaro encantado - Rubem Alves

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mundo paralelo

Estive no estado do Amazonas nos últimos dias. Viagem a trabalho, para o interior do estado. Em breve, vocês vão poder ler o material na revista em que trabalho. Ainda estou mexida com tudo o que vi por lá. É lindo, mas incômodo estar lá. Eu sabia que estava no meu país, mas me faltava o sentimento de pertencer àquele meio. Ou, então, eu me sentia um pouco "culpada" por viver em um mundo diferente sendo do mesmo lugar, apesar de distante. Foi estranho, mas foi único. Foram dias muito especiais e, apesar de todo o estranhamento, eu saí com a vontade de ficar. Saí com a vontade de voltar.

Pinte um pássaro

Recebi do meu amigo Marcos a poesia abaixo, depois que publiquei o texto "Que pássaro". Achei lindo o texto e quis compartilhá-lo com vocês. Espero que gostem. Vale muito a pena ler.


Para pintar o retrato de um pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro

depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta

esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…

Às vezes o pássaro chega logo
mas pode também ser que leve muitos anos
para se decidir

Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro

Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro

Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro

pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar

se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim

mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo

Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro

Jacques Prévert

sábado, 19 de novembro de 2011

Que pássaro?

Em alto e bom som, sempre falei do meu favoritismo por felinos. Amo gatos, tigres, leões, panteras... E tenho a Amor na minha vida, minha gatinha, que já foi tema de textos aqui. Mas, hoje, vou falar de um grupo de bichos que me desperta vários pensamentos. Falo de pássaros. Eles sempre foram uma fonte de metáfora para mim. Hoje, mais uma vez, andei pensando neles. Será que os persigo por causa do meu "espírito" um pouco felino???
Bom, mas fiquei pensando como as pessoas estão relacionadas aos pássaros. Primeiro, o homem morre de inveja do pássaro. Sempre quis voar. Ainda não conseguiu, ele, o homem, voar. Consegue por meio de aviões, helicópteros, balões e outros recursos, mas o homem, esse não, não conseguiu ainda voar.
E, além disso, há um quê de pássaro em cada homem. Uns são mais soltos, libertos, sem amarras, que vão e, se quiserem, voltam. Outros ficam presos, feito papagaio domesticado, sempre no mesmo lugar por anos, 20, 30, 40... Outros, vão e voltam, como os temporões, que procuram o melhor lugar para se estabelecer conforme o ambiente. E tem, ainda, os filhotes, que dependem de seus pais para tudo. E há, ainda, os caçadores, que não se importam em abater um menor para se alimentarem dele. E há os belos, os lindos, os coloridos, tantos que nos enchem o olhar e nos fazem morrer ainda mais de inveja. Assim, os homens inventaram as armadilhas para pássaros. E prendem aquilo que nasceu para ser livre e, por ser livre, é tão lindo. Prendendo, vai-se o brilho... como a história da menina e do pássaro (para quem não conhece, recomendo).
E, de lembrança agora e por causa do espaço, há os de belo canto. Mais uma vez, os que despertam tanta inveja no homem. Cantam, à toa, de graça, para a gente, de uma árvore, pertinho, não precisava prender. Deixa o bicho. O bicho, livre, feliz, canta melhor, mais bonito. Mas não, quero perto, só para mim. Então, prendo, amarro, aprisiono. O canto morre, mas o pássaro é meu, pensa o homem. Daí, talvez, a minha repugnância a pássaros presos. Deveria ser proibido em qualquer hipótese.
Falei de tantas e tantas formas de pássaros, mas todas são lindas. E, embora tenha espírito de felino, jamais quero um preso a mim. Amo eles livres, lindos. E tudo isso me faz pensar: que pássaro eu gostaria de ser? Qualquer um tem sua beleza, mas, se pudesse escolher, queria ser um bem colorido, que cantasse lindamente, para mim e para os outros, sempre feliz e em liberdade, de espírito, de corpo e de alma.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Hipótese de Emília

"A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais (...). A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre.
– E depois que morre?, perguntou o Visconde.
– Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?" - Monteiro Lobato
Emília era mesmo uma menininha/boneca esperta. Vi esse texto no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e até tirei foto de tanto que eu gostei dele. Achei o máximo. Não conhecia antes. Não conheço tudo de Monteiro Lobato. Mas acho genial a forma como ele criou a Emília, travessa, meio perversa, esperta ao extremo e dotada de uma sabedoria, estranha, inquieta, mas que dá uns trancos na gente.
Essa bonequinha não criou uma metáfora extraordinária para falar da morte ou do que já não existe mais, por qualquer que seja a circunstância? O que acontece a cada piscada? Uma morte. Cada piscada, uma morte. E, quando para definitivamente de piscar, vira hipótese. Não só a morte, mas tudo o que deixa de existir na vida da gente não vira hipótese? E não é isso o que inquieta tanto, o que gera tanta angústia?
Tenho uma amiga que sofre após a morte do irmão. Quer saber como ele está, se estiver em outro plano - se existir mesmo o outro plano. Angústia sem fim. Porque, tirando o que está na vida da gente e é a vida da gente, o resto todo é hipótese = angústia, incerteza.
O que a gente tem de fazer, então, é colocar a hipótese na vida da gente, tratar como algo que anda piscando, que não parou de piscar. Pelo menos, entra como algo natural e, assim, as gentes não sofrem tanto quando o pisca-pisca apaga.