sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Testimonial

São dez anos juntos, grudados, um fazendo parte do outro. Se bem que, nos últimos anos, a gente não tem se encontrado tanto. Coisas da vida, né? Outras pessoas vão chegando, outros compromissos. Mas nem por isso eu te esqueci ou passei a gostar menos de você. Tudo o que você representou na minha vida continua valendo e vai para sempre comigo. Os primeiros passos num mundo que eu ainda desconhecia, de tantas conexões possíveis, de communities de todos os tipos.

Você me ajudou a me abrir mais para as pessoas, contar as minhas coisas com menos medo. Passei por algumas confusões por causa disso, mas, olha, serviu (e muito!) como aprendizado. Fez com que outras pessoas me dissessem várias coisas que eu não sabia que elas viam em mim. Rsrsrsrs... Até hoje eu fico me perguntando se eu sou aquelas coisas mesmo...

Você foi mais que um amigo para mim nesse período. Foi um companheiro, um parceiro, um amor, aceitou tantos desabafos, fez meu coração tremer tantas vezes e aliviou algumas angústias. Um simples scrap já poderia mudar meu humor durante o dia. Por falar em humor, inesquecível o seu “humor do dia”. Poxa, tinha coisa que batia direitinho. Parecia que você tinha lido meus pensamentos. Tinha?? Ai, como a gente é bobo às vezes!

Eu queria, de novo, te pedir desculpas pelas vezes em que fiquei sumida ou que até excluí você da minha vida. Sempre há uma razão. Não é que foi uma troca por outra parceria mais interessante, mesmo sendo, mas é que a gente age por conveniência mesmo – estou sendo extremamente sincera agora. Espero que você me perdoe e me entenda. Você está para sempre no meu coração, ainda que eu esteja committed com outro. Não te esquecerei jamais. Obrigada por tudo, Orkut.

Orkut

* 24/1/2004

+ 30/9/2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fique longe de nós

Torço para que, àquela altura da noite de domingo, já entrando a madrugada, a audiência estivesse baixíssima. Que o número de pessoas sentadas nos sofás de casa tenha sido o mínimo. Que a “família” brasileira estivesse dormindo. Que os amantes estivessem se amando, de todas as formas, gêneros, números e graus. Que qualquer coisa fosse mais importante e tirasse as pessoas de frente à televisão. Assim, elas não veriam a agressão ao vivo e em cores no debate dos presidenciáveis organizado pela TV Record. A agressão que machucou, que feriu, que assustou, que deixou a gente incrédulo.

Até pouco tempo, o candidato do bigode, já figura tão conhecida do eleitorado brasileiro, devido às 12 eleições que disputou – todas com votação pífia, insuficiente para que fosse eleito –, era, para mim, o “viajante solitário de ideias mirabolantes”. Aqui, neste espaço mesmo, eu dei essa “denominação” a ele devido às ideias incríveis que apresentava, como o famoso aerotrem.

Nunca foi agressivo você ter ideias incríveis e irrealizáveis, embora estivesse, de certa forma, tentando enganar os eleitores. Ok, é perdoável, até porque você jamais seria eleito a qualquer coisa – pensamento do eleitor.

Nunca foi agressivo você ter ideias conservadoras, assim como também não podem ser as ideias progressistas. A democracia dá o direito de expressão, para todos os lados.

Até quando você disse que iria “bombardear uma adversária”, não foi agressivo, foi levado para o lado jocoso, cômico, que é o que você passou a ser para os eleitores e para os telespectadores: a comédia, a garantia de risos com as pérolas que lançava.

Você deixou de ser cômico e engraçado. E perdoado. Ainda que, por toda a vida, tenha tido ideias absurdas sobre as relações homoafetivas, se não queria ampliar um pouco a mente, você deveria tê-las guardado para si. Jamais usar o espaço democraticamente cedido a você, mesmo com a baixa expectativa de voto que tem, para destilar ódio contra qualquer pessoa ou grupo.

É de você e de pessoas que alimentam a violência contra o outro que queremos distância. Você e pessoas como você fazem os meus amigos, as pessoas que eu amo e tantos desconhecidos que eu respeito serem rejeitados em casa e na sociedade, apanharem na rua, terem de viver escondidos e serem abolidos do mapa social em muitas questões e direitos.

Eu não gosto mais de você. Eu quero que você perca pela 12ª vez nas urnas, que continue sendo um viajante solitário de ideias mirabolantes, mas que agora receba pelo menos 1% da hostilidade que as pessoas atacadas por você sofrem na pele. Que você continue gastando seu dinheiro à toa nas campanhas. Reme, reme para chegar a lugar nenhum. Que, quando você for à Mutum, cidade mineira onde você nasceu, as pessoas gargalhem na sua cara. Que, ao se sentar em um restaurante ou sorveteria – um típico programa da família brasileira –, quem estiver ao lado se levante e olhe torto para você e seus familiares.

Se passar uma vez por uma dessas situações, pode ser que você pense um pouco no que anda disseminando por aí, porque pensar parece ser coisa que você não tem feito, embora conste que você é jornalista e publicitário. E, se pensar e ver que a luta tem de ser por mudanças, por aceitação das diferenças, por respeito e amor ao próximo, por proteção das pessoas e pelo direito à vida e a à integridade física e moral, pode ser que um dia perdoemos você de novo. Agora, exatamente agora, estamos magoados e queremos distância de você.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A ela

Toda vez que eu passo por ela, eu a vejo trabalhando. Forte, de braços com músculos definidos, ela não poupa o físico que possui ou que desenvolveu/buscou ao longo da vida: lava carros o dia inteiro. Nos intervalos de almoço, faz entrega de marmita. Quando encerra a jornada de lavar carros, vai entregar mais marmitas. Carrega, nas costas, alguns quilos, a comida dos clientes. O que mais ela leva nas costas? Um rastro de preconceito, a discriminação que deve receber a cada esquina?
Possivelmente, ela já foi alvo de muitos olhares tortos. Usa cabelo raspadinho, o que exibe o rosto bem-desenhado que possui. Não se veste de maneira feminina, dentro do "padrão". Mantém a autenticidade, não se desvirtua do que é, exerce as atividades em que acredita que se sai bem. E trabalha, trabalha. Dia e noite, de uma forma admirável.
Em uma das suas entregas de marmitas, eu digo: “como você trabalha, hein, menina? Vai ficar rica!”. Ao que ela me responde, de um jeito tímido, meio cabisbaixa, sem olhar diretamente nos olhos: “rica, não precisa, mas, passar fome, eu não passo. Trabalho, tem muito por aí, quem fala que não tem tá mentindo”.
Com a energia e a vontade de trabalhar que tem, ela não vai passar fome, não. E, se há quem a olhe torto, pelo que ela é, como se veste ou o que faz, há um mundo que a admira.
E eu te admiro imensamente. Queria ter te falado isso na nossa conversa rápida entre marmitas. Não falei, mas acho que você entendeu. Parabéns, ela!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Vazio

O que vem depois da cura?
E agora, o que mais fazer?
Pelo que lutar?
O que buscar depois da cura?
Qual é o próximo plano?
O que fazer para não sentir saudade de quando a cura era a meta?
Como não pensar que sofrer de amor é melhor que ser curado dele?

Insônia

Não é só uma sensação.
O dia acabou, e você sabe que não o viveu o suficiente.
Você não o viveu.
Não adianta não dormir.
Ele se foi.
Não há pestanas abertas nem olhos abertos que o segurem.
Você já o perdeu.

Fim

Finda o dia
Fim do dia

Fim do dia
Finda a vida

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dedicatória

A tudo o que virou hipótese para mim
e a tudo para o qual virei hipótese,
deixo um "se" inquiridor.

O homem do livro

Escolheu para extensão de seu corpo o livro. Para onde quer que vá ou com quem quer que converse, é esse o objeto que ele leva consigo. Chegue à casa dele, para uma visita. Em algum momento, ele vai trazer um livro para a conversa, falar de alguma curiosidade que encontrou no texto ou até vai ler para você uma passagem que considera importante e, por isso, merecedora de ser dividida com outros.
O homem do livro, em tempos de mundo virtual, aldeia global, não escolheu nada midiático para interagir. Sua extensão é o livro. O que talvez até seja uma pena, porque o homem do livro acumulou tanto conhecimento ao longo de sua vida que seria rico que outros, por meio das redes sociais, pudessem ter acesso a essas tantas e tantas histórias.
O homem do livro se interessa por história, literatura, religiões, genealogias, ciência, astronomia, quadrinhos, filmes, música. Não só se interessa, pesquisa a respeito de tudo o que lhe interessa. Pesquisa, lê e escreve. Com a internet, descobriu que pode adquirir mais livros, de edições diferentes, antigas, obras com as quais teve contato na infância e muitas outras. A internet lhe abriu muitas portas de pesquisa, mas o papel continua sendo seu mundo preferido.
Ele nunca saiu de seu país, mal gosta de sair de sua casa. E não sente falta de descobrir outras paisagens. Pelos livros, fez viagens até mais longas e enriquecedoras que as que fazem os que caem na estrada. Para ele, lhe basta ter nas mãos Machado, Rosa, Alves ou os muitos outros que ele admira.
O homem do livro é meu pai. Uma pessoa de nome diferente, inventado pelo pai dele. Tímido, o homem do livro tem até um pouco de vergonha de seu nome, preferiria se chamar José, para não ser notado. Apesar do amor pelos livros, nunca se descuidou dos deveres: trabalhar, cuidar da família, passar valores, detalhes que foram tão importantes para a formação do nosso caráter, que fizeram com que nossa família se mantivesse unida, firme, mesmo com nossas tantas diferenças.
Eu não me lembro de não ter visto meu pai com um livro na mão em pelo menos um momento de nossos encontros ou da vida que dividimos. Pequena, eu o via por horas e horas diante do armarinho recheado de livros. Foi sua primeira biblioteca. Hoje são muitos mais livros, e ele continua incansavelmente lendo e alimentando, com isso, sua impressionante memória.
Se eu gosto de ler, escrever, pesquisar, ouvir histórias e músicas, saber mais de história, ter um pouco de senso de justiça social e de humanidade, se eu sempre busquei ter mais conhecimento, devo isso, em muito, ao meu pai, o homem do livro. Se a vida tivesse lhe dado as oportunidades que ele e mamãe me permitiram ter, tenho certeza, o homem do livro teria sido um melhor jornalista, historiador (ou professor de história) e revisor que eu fui ou tenho sido. Porque é nato tudo isso no homem do livro, um intelectual à moda antiga.
Homem do livro, feliz Dia dos Pais! Obrigada por ter sido minha primeira referência intelectual. Isso moldou todo o meu caminho.

domingo, 3 de agosto de 2014

Cercada

Pintando um quadro, certamente, agora, eu pintaria palavras transformadas em monstros. Vindas do céu, da terra, dos ares, das águas, de todos os lugares. Com bocas gigantes, dentes enormes e afiados. Todas em cima de mim, arrancando meus pedaços, minhas pernas, meus braços. Atingindo meu coração, de forma certeira, como os mísseis que matam crianças do outro lado do mundo. Neste momento, um míssil acertou meu coração novamente. Uma bomba abateu minha cabeça. Já não posso mais continuar. As palavras me mataram.