domingo, 22 de fevereiro de 2009

Samba manco em BH

A vida de jornalista dá oportunidades interessantes para o ser humano. Agora, por exemplo, ando atarefada com o plantão de Carnaval. Sempre achei que iria odiar com todas as minhas forças ter que ficar em BH em vez de fazer uma repousante e agradável viagem. Estou tão surpresa comigo! Nunca imaginei que iria curtir tanto trabalhar no Carnaval. E olha que não estou cobrindo nenhum evento superconcorrido nas cidades mais badaladas do Carnaval brasileiro. Estou cobrindo o Carnaval em BH. Isso mesmo! BH tem um Carnaval, muito discriminado, mal visto e olhado torto, mas tem. Vamos a ele!
Fui para lá ontem, primeiro dia. É na Via 240, no Bairro Aarão Reis, na Região Nordeste da cidade. É uma área pobre, com infraestrutura precária e moradias humildes. Por esse local, passa uma extensa avenida, que é a Via 240, onde se monta o "sambódromo" belo-horizontino. São 300 metros de pista para que blocos caricatos (exclusividade da capital mineira) e escolas desfilem. Ontem, foram os dez blocos caricatos. Hoje e amanhã, serão as sete escolas.
A impressão que passava para quem chegou mais cedo e viu aquela quantidade de caminhões estacionados antes do portal do desfile, com pessoas arrumando tudo de última hora, era de que seria um fiasco, que seria um desfile de pobreza e amadorismo. Não dá para falar que foi um desfile de riqueza e experiência, mas foi um belo desfile - de alguns blocos em especial, outros se prenderam à pobreza e ao amadorismo.
Duas coisas chamaram a atenção, principalmente. A primeira foi o público. Todas as arquibancadas ficaram lotadas e quem ficou no chão se espremia para ver os blocos passarem. As pessoas se empolgaram, se divertiram e interagiram com os "artistas". Outra coisa interessante foi a capacidade dos envolvidos nos blocos. Difícil entender o que os move, já que os recursos são parcos, não têm patrocínios e a premiação também não é alta, considerando o tanto de gente que participa. Se for dividir o dinheiro... Mas eles agiam com vontade, com amor, dentro de suas limitações. Isso é algo interessante de se ver.
Acompanhei o desfile do início ao fim. Fiquei mais de oito horas por conta daquela manifestação. Em cima disso, reflito sobre o alcance do evento. Por ser em região pobre da cidade, fica limitado a ser visto apenas por quem mora próximo. Duvido muito que alguém que more na Região Centro-Sul vá sair de sua segura casa para ver o Carnaval de BH na Via 240, onde imaginam que só irão encontrar "marginais", o que colocaria sua vida e seus bens sob ameaça. Uma pena. Aquelas pessoas mereciam ser vistas por um olhar diferente. Só se tem ideia do que é o evento quando se está lá. Não estou falando que foi algo perfeito. Houve muitos, muitos problemas. Mas houve blocos que conseguiram atingir um alto grau de beleza, de harmonia e de musicalidade que poderia agradar mais pessoas. Quanto à segurança, claro, fui até a PM para saber. No final do evento, uma ocorrência registrada: uma briga entre marido e mulher.
De tudo isso, é frustrante constatar a divisão social proporcionada pelo território de BH. Acho que esse enredo do Carnaval da cidade seria diferente caso os desfiles fossem transferidos para um ponto mais central. Mas, para isso, seria necessário vencer o interesse de alguns que querem ver o evento bem longe da "civilização". São muitas as desculpas: hospitais, monumentos, prédios públicos, casarões dos ricos da cidade etc. Eles argumentam e conseguem impedir a transferência do Samba Belô para um lugar mais central. Assim, fica o Carnaval da cidade, sambando com uma perna só.

2 comentários:

  1. Amiga! Que legal ver que você estreou um blog. Vai ser ótimo ver seus textos e tenho certeza de que irá se divertir muito!
    O Carnaval de BH nunca foi bem visto pela classe média - se fosse, ainda seria realizado na av. Afonso Pena. Enquanto no Rio e em São Paulo todos conhecem e respeitam o trabalho desenvolvido por seus sambistas, por aqui, ninguém sabe nem nomeá-los. Eu trabalho com cultura há tantos anos e só sei da existência do Serginho Beagá. Triste.
    E olha, se você imprimir no texto do Hoje em Dia a mesma emoção contida neste texto, eu e Marcinha já podemos fazer nossas malas para Araxá! Adorei!
    Seja bem-vinda!

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  2. Amiga... primeiro: adorei o blog!!! uhu! Ahaza. Agora vamos aos comentários... eu sou uma daquelas que não sai de casa com medo. Teria medo se fosse no centro também... Depois que fui assaltada dentro de um ônibus, só ando de taxi - você sabe!! Mas, uma coisa que poderia proporcionar segurança, seria um maior apoio dos órgãos competentes... tudo bem que não vejo TV aberta e não circulo nos ônibus, mas não sou alienada... leio sempre - qualquer tipo de leitura - e nunca vejo nada sobre o carnaval de Belo Horizonte que desperte o meu interesse em conhecê-lo (seu texto foi o primeiro sinal de vida desse carnaval - vida pulsante!)...

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