segunda-feira, 16 de março de 2015

Melhor assim

Sem sair da pauta, mas procurando um ângulo enviesado para falar dela e, assim, tentar ser mais polifônica. Sobre tudo o que se passa, muito o que falar, muito esse que às vezes embola a fala e silencia. Parece ser o caso agora do que acontece por cá. À espera, talvez, de um momento em que seja mais fácil falar com quem não quer ouvir. Hoje, no entanto, a paradinha de reflexão foi sobre a Constituição Federal do Brasil. Muitas e muitas leis. Texto longo, chato, hermético? Não. Só pegar um pouco de paciência que vai. Não precisa ser tudo de uma vez, mas é interessante saber um pouco do conjunto principal de leis que nos rege.
O texto é bonito. Um dos mais modernos textos constitucionais do mundo, humanista, que se pretende universal na questão de tratar de todos, os iguais e os diferentes, que, ainda bem, somos. O apelido, não por acaso, é “Constituição cidadã”. Porque é só pensar que foi redigida e promulgada após um período de silenciamento da sociedade, da mídia, da arte e da cultura, da pessoa, em seus direitos civis e humanos, muitos deles tolhidos. Feita, havia muito a contemplar.
Especificamente, hoje, depois de ler nos jornais a lembrança dele, fui no Capítulo 1 – Dos direitos e deveres individuais e coletivos do Título 3 – Dos direitos e garantias fundamentais. Procurei o tal artigo que cuida da garantia do estado democrático – que, para refrescar, é este em que vivemos, graças à luta travada por aqui, de 1964 a 1985, contra a ditadura militar. Diz ele: “XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.
Minha paradinha continua, mas agora comigo, sem texto de apoio. Eu e minha memória. Repasso muitos dos cartazes, postagens e gritos de ordem que vi/ouvi ontem na grande manifestação realizada em algumas cidades brasileiras. E o que é a vida... Penso nos limites de outro artigo da nossa Constituição, o da liberdade de expressão (art. IX do mesmo capítulo, do mesmo título), quando me lembro de quem pede intervenção militar (atentado contra ordem constitucional e o estado democrático). Conforme a Constituição, esses deveriam ter sido presos de forma inafiançável, sim? Porém, não houve um movimento sequer nessa direção. Continuaram livres em seus brados, exercendo o direito de livre expressão. Contrariada talvez, concluo, num suspiro (de paciência?, de desânimo?, de resignação?): ainda que assim, melhor assim.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Azar de todo o dia

Salada de frutas estragada
Rabanete na salada
Espinho de peixe embrulhado na comida
Café frio de sobremesa
Um gosto de água química na boca
Hoje é sexta-feira 13

quinta-feira, 12 de março de 2015

Aniversário da Mulher

Mesmo sendo data repetida todo o ano, neste foi que eu pensei no aniversário da minha mãe, que é hoje, de uma forma diferente. Foi a primeira vez que olhei com interesse o fato de ser na mesma semana do Dia da Mulher. Talvez por causa do Dia da Mulher tão diferente que tivemos, com um encerramento tão melancólico no Brasil, uma manifestação que deveria ter conotação política, mas que foi tão e somente sexista e provocou reflexões de todo o tipo. Acho que ainda não digeri o Dia da Mulher de 2015 no Brasil. Ao mesmo tempo, não me sinto à vontade para falar especificamente dele. Não sei ainda se estou tão evoluída para acatar determinados retornos que porventura vierem.

Sei que, embora hoje seja o aniversário da minha mãe, não paro de pensar é na função social de mulher que ela exerceu durante toda a vida. Em como, nas atitudes e nas palavras, ela agiu e foi protagonista, sem qualquer intenção de ser ou sem nem saber o que o conceito significaria nesse caso. Somente sendo. Vindo de uma família conservadora e linha dura e saindo para a vida para ser dona do nariz ao cumprir a missão que acreditava ser dela.

Até nos discursos “conservadores”, minha mãe, paradoxalmente, exercia a função social. “Eu quero que vocês se casem e tenham filhos”, dizia, mas emendando: “eu quero que vocês estudem e trabalhem. Ganhem o próprio dinheiro e nunca dependam de homem nenhum”. Crescemos, eu e minha irmã, com palavras assim da nossa mãe ecoando em nossas mentes. Nunca planejamos ou arquitetamos prioritariamente nos casar, mas tínhamos certeza de que iríamos estudar muito, trabalhar, ganhar nosso dinheiro e, Deus queira, jamais depender do dinheiro de ninguém – nem de homem nem de mulher.
Além da função social como mulher, a função social como ser humano/social. Essa, que fez com que muita gente conhecesse a dona Flor. Flor acolhedora, de mão estendida, pronta para dividir o que tem – e o que não tem também, sem problema. Dividir o que tem, sentar ao lado dos pobres, orar pelos doentes, atender sem olhar a quem, priorizar o outro.

É estranho priorizar o outro na sociedade do eu e das senhoras ou senhores que não querem esbarrar em ninguém na poltrona do avião. É estranho porque perdemos a referência do que é valor – se é que já o tivemos algum dia. Não há uma lista fechada do que é valor, mas talvez possamos refletir sobre o que não deve ser valorizado. E uma coisa que eu talvez gostaria que não fosse valorizada é o sentimento de ser melhor que alguém. Retomando até passagens bíblicas que a minha mãe, a dona Flor, sempre gosta de citar: “do pó, foste, ao pó, voltarás”. Não conheço ainda ninguém que não tenha morrido, virado alimento para micro-organismos (para ser elegante na nomenclatura) ou cinza em algum forno de cemitério.

Mas hoje é o aniversário da minha mãe. Este texto era só para dar parabéns à dona Flor e agradecer por ela ter me mostrado, a vida inteira, que eu sou igual a todo mundo e que eu não teria privilégio nenhum com ela, nem mesmo por ser filha, e assim me ensinou a não esperar privilégio nenhum do mundo. Agradecer também por ter me ensinado a ser uma mulher forte, que, embora esteja achando difícil, tenta ignorar os xingamentos recebidos, como mulher, a partir de varandas de apartamentos.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Um certo José Rico*

Demorou um tempo para eu aceitar que o Milionário era o José Rico e o José Rico era o Milionário. Foi acontecendo não com pouca dificuldade. É porque o José Rico tinha cara de Milionário. Quanto ao Milionário mesmo, não tenho tanto a dizer, porque era o José Rico – que, pra mim, deveria ser Milionário – o cara que me chamava a atenção.

Eu gostava de olhar para aquela figura “exótica”. Um cabelo grande simulando ser mal cortado (ou era mal cortado mesmo?), costeletas (!!!), barba que tampava o rosto inteiro, correntes douradas no pescoço, anéis dourados nos dedos, óculos escuros (muito mais que Ray-Ban), roupas coloridas. E, pra completar tudo, uma unhazinha maior pintada de vermelho. Gente, a unha do mindinho. Era uma diversão para uma criança olhar aquilo. “Credo!”. Claro que era isso que eu dizia, mas, no fundo, sendo profundamente atraída pelo bizarro, como costuma ocorrer quando nos deparamos com o bizarro.

Nunca tomei muito conhecimento do Milionário, que era bem mais discreto. Usava apenas um chapéu. Sem barba, sem costeletas, sem a unhazinha vermelha, com os cabelos bem cortadinhos e roupas mais discretas. Acho que eu tinha um pouco de mágoa dele, por ter “roubado” a alcunha do meu amigo mais destacado, seu parceiro de dupla. Ele, sim, tinha cara de Milionário. Era ostentação pura. Cara de gente rica, ou recém-rica, como falam por aí. Que tem tudo para mostrar, que chama a atenção, que não quer passar batido em lugar nenhum. Gente milionária, sabe?

Isso tudo, pra mim, era o principal, quando deveria ser o pano de fundo do contexto que me levou a conhecer o Milionário. Digo, José Rico. Era a música. Sertaneja. Um pouco mais “moderninha” que a caipira de Tonico e Tinoco ou Cascatinha e Inhana. Os dois cantores “do dinheiro”, que passaram a ser chamados de “As gargantas de ouro do Brasil”, traziam uma versão mais atualizada da música caipira.

Era o sertanejo romântico. Foram precursores nisso. Um estilo que foi se firmando e é um dos mais fortes no Brasil atualmente. Os dois falavam de amor quase sempre e da estrada da vida, que leva a gente para onde nem sabemos. Aliás, estrada era outra paixão embutida nas canções de M e JR, ídolos também dos caminhoneiros, presentes em músicas alegres, apaixonadas ou tristes, como a “Sonho de um caminhoneiro”.

Claro que a segunda voz é importante em uma dupla – embora existam umas que não são nem nunca serão notadas. Mas tem primeira voz que é diferente, que chama a atenção de uma forma especial. E a do José Rico era dessas. Vozeirão bonito, firme e natural, mesmo com o passar dos anos – o que faz aumentar a admiração por ele diante de tantas primeiras vozes forçadas por aí. Ainda juntava a tudo isso o fato de ele ser gente boa, né? Simpático, carismático, sorridente.

Como se fosse pouco, não era só a voz dele o admirável na carreira da dupla, que vendeu 35 milhões de discos. A música era boa, boa mesmo. Bonita, poéticas, simples e com sentimento. Eram poesias, como a de “Sentimento sertanejo”, deles, a preferida do meu pai:

“Um sentimento que me faz sofrer

Trago guardado em meu coração

Depois de tantas juras de amor

Eu recebi a sua ingratidão”

Talvez seja difícil hoje um jovem reconhecer a beleza dessas canções, porque é o “sentimento sertanejo” vai mais e mais ficando para trás, se tornando arcaico e conhecido mais somente entre os mais velhos. Mesmo sabendo que o “sertanejês” é uma das matrizes da nossa cultura, muitos de nós passamos a vida sem dar mais atenção a isso, às vezes, até ignorando a existência dele. Mas o conselho é: se um dia você quiser ouvir algo diferente mas genuinamente brasileiro (mesmo com a influência da country music em muitos casos) e estiver com tempo sobrando e coração aberto, pegue um Milionário e José Rico para ouvir.

Pode ser que não te provoque efeito nenhum, mas pode ser que você seja tocado pela emoção das músicas da dupla e, a partir de então, se torne mais um encantado pelo sertanejo “de raiz”, como dizem. Que comece a pensar em noites do interior do Brasil, tão solitárias, embrenhadas no meio do mato, mas cheias do sentimento que músicas do tipo levam. Ou até de festas do interior, que a trilha sonora prestigia as nossas duplas. Ou, ainda, na incerteza da estrada sem fim que caminhoneiros do país inteiro enfrentam todos os dias, faça chuva, faça sol.

Não digo que vá ouvir essas músicas todos os dias ou de forma preferencial. Mas vai ouvir com respeito, com afeto, uma doçura que brota lá dentro da alma, talvez até com um pouco de comoção. E vai pensar em pessoas como José Rico, que foi conhecer outras estradas tão precocemente, mas que levou a música dele de forma tão digna por mais de 40 anos. Todo o meu respeito, José Rico. Espero que você tenha tido tempo de saber o quanto você foi importante na representação do coração brasileiro. Sinto muito pela perda, Milionário.

(*) Artigo que escrevi para o portal Tudo BH (www.tudobh.com.br).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Por que não falamos delas?*

Vi uma menina no meio do Carnaval. Outra no cinema. Vi andando na rua. Sentada em um café. Vi em vários lugares, passeando alheia, como se o ar fosse um peso, o tempo, um martírio, a vida, um castigo. Vi uma menina que tentava se esconder, que andava sozinha. Que puxava a roupa para baixo, para o lado, que preferia sempre ficar sentada, no fundo da sala ou em qualquer canto invisível. Vi uma menina que não sorria. Que parecia chorar em cada olhar, que parecia rabugenta para quem não entende que o nome daquela expressão é tristeza.

Vejo meninas assim, todos os dias, em todos os lugares, cada vez mais escondidas, como se precisassem não ser vistas, ou se quisessem não ser. Essas meninas já vistas não têm saído da minha cabeça. Desde que li o post, não tem um mês, acredito, de uma conhecida no Facebook, falando sobre assuntos de que não falamos, do nosso silêncio tão omisso. Em certo momento, ela faz a pergunta: “vamos falar da solidão da mulher gorda?”. Direta e francamente, como um cruzado que vai no queixo, um direto no nariz ou um chute no estômago, se preferirem.

E por que a questão é especificamente sobre a mulher gorda? Mas e por que não sobre a mulher gorda? É da solidão da mulher gorda, porque ela rasga como punhal, porque a gente sabe que não é invenção e não é mentira, porque a gente a vê mais que qualquer coisa que é disfarçada na sociedade. Porque a gente, arrogantemente, sente dó da mulher gorda e da solidão dela. Porque é a mulher o principal alvo do ideal estético que é, todos sabem, a magreza ou a definição muscular. Tem cobrança para homem? Tem, mas não como é para a mulher, não vamos nos enganar.

Não parei mais de pensar na pergunta. “Vamos falar da solidão da mulher gorda?”. Como um martelo na cabeça. Vamos falar? Quem tem coragem de falar? Quem vai enfrentar isso? Quem vai assumir que tenta ignorar isso? Quem vai admitir que realmente não pensa nisso porque não é um problema seu? Porque é assim que a maioria de nós pensa. Quando o problema não nos afeta diretamente, não olhamos para ele com a preocupação de buscar uma solução ou de amenizá-lo.

Depois de ler a pergunta dessa minha conhecida, eu não consegui parar de tentar dimensionar a dor da solidão da mulher gorda. Até a expressão mulher gorda já carrega uma dor. Uma solidão, como se sinônimos fossem. O peso que a mulher gorda carrega, mais que corporal, passa a ser sentimental. O peso de ter de existir em um mundo que não quer que você exista, não do jeito que você é.

O peso de existir sozinha, de apenas escutar os papos das amigas que contam que saíram para a balada, conheceram alguém, beijaram na boca, transaram, receberam uma ligação. De ouvir que as amigas estão sendo desejadas aonde quer que vão, e ela, não. O peso de não ter o que contar. De ouvir em silêncio, melancolicamente, querendo se empolgar com a história da amiga, escondendo mais no fundo ainda a dor. Até o peso de ser esquecida – intencionalmente ou não – para passeios com as amigas, porque a “mulher gorda” não se encaixaria em certos programas ou não se sentiria à vontade neles. Será?

Porque a vida da mulher gorda é viver num esconderijo. Privando o outro de saber da fragilidade que isso tudo envolve, da raiva que aparece dia sim, dia não, da revolta, de tantos sentimentos que surgem e que são difíceis de nomear, mas que existem, como uma força que faz o peso aumentar a cada dia. Uma âncora. Sim, uma âncora.

E ainda ter de lidar com julgamentos de quem acha que a mulher gorda está gorda porque não tem força de vontade. Ter força de vontade motivada pelo quê? Mulher gorda e solitária, você ainda tem de ser um ser dotado de força de vontade sobre-humana neste mundo que te rejeita, se não, pobre de você, será um ser ainda pior. Acomodada. Fraca. Compulsiva. No mínimo. E essa ainda é outra questão, que envolve o preconceito e o julgamento contra a pessoa gorda em geral.

Não é a questão principal desta discussão, que quer se prender à solidão da mulher gorda. Que eu, mesmo tentando nos últimos dias, não consegui dimensionar, mesmo sendo mulher e não sendo magra, convivendo com mulher e ouvindo mulher. Ainda assim, não consigo parar de pensar na questão: “vamos falar da solidão da mulher gorda?”. Vamos falar, pelo menos falar, encarar que existe e que somos todos responsáveis por ela, essa solidão. Se haverá uma solução (que não seja exigir que a mulher gorda emagreça)? Não sei. Poucas vezes fiquei tão sem resposta.

(*) Artigo que escrevi para o portal Tudo BH (www.tudobh.com.br).

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O dia em que fui salva

Outro dia, passando pela rua Alagoas, na Savassi, a criança grande, que é como eu carinhosamente chamo a estagiária do trabalho, ao fazer um comentário, me fez lembrar de uma história que eu vivi num restaurante dali. Ela, que me fez lembrar da história, que a ouviu e riu, disse que eu tinha de contar adiante. Então, vai lá.
Num desses eventos de jornalistas, estava eu em uma mesa com dois ou três amigos papeando. Comidinha boa, bebidinha deveria estar também, porque, naquela época, eu bebia ainda menos que hoje. Isso deve ter uns seis anos pelo menos. Descontraídos, demoramos a perceber nossa vizinha de mesa. Uns até hoje não devem ter notado, mas eu jamais esquecerei.
Nesse papo bobo, eis que surge uma baratinha sapeca, queimando o filme do restaurante, que não chega a ser dos mais caros de BH, mas também não é dos mais fuleiros. (Criança, a única vez que eu tomei um tapa do meu pai foi por causa de uma barata. Ele já dormia quando ouviu um berro meu. Correu, em pânico, achando que eu tinha caído do beliche. Quando chegou, eu disse: "a barata, pai", crente de que ele iria matar a bicha e me livrar da presença dela. Tomei um tapa no braço pra aprender a não fazer escândalo à toa. Não adiantou muito, como veremos. Ah, mais uma coisa: se eu tivesse sido mais esperta, teria me lembrado de que meu pai jamais mataria a barata nem outro bicho qualquer. Mas eu nunca fui muito esperta mesmo).
A baratinha começou a passear perto da minha mesa, porque sempre as baratas, os ratos, os morcegos, as abelhas, as vespas, o que for, vão pra cima de quem tem mais medo deles. Eu, esquecendo completamente os ensinamentos que deveria ter aprendido com o tapa do meu pai, dei gritinhos ridículos (o que me alivia é que não somente eu dou gritinhos ridículos quando tem uma barata por perto). "Ai, gente, uma barata! A barata! Tem uma barata aqui, gente!". Deve ter sido alguma coisa assim. Ninguém fez nada. O garçom fingiu que não era com ele, acho que pensou que, se assumisse que tinha uma barata lá, seria uma queimação de filme maior.
Os gritinhos, no entanto, não foram em vão. Aquela vizinha de mesa que foi ignorada por tanta gente me ouviu. Então, aconteceu de Tammy Gretchen se levantar da mesa, vir na minha direção e, com uma pisada só, acabar com a vida da baratinha incômoda e queimadora de filme. Olhei (deve ter sido com um olhar mais cativante e apaixonante que o do gatinho do Shrek) pra ela e agradeci. Ela só disse "de nada", com um sorriso, e voltou para a mesa dela.
Ficou a baratinha amassada para o garçom que ignorou minha aflição limpar. E eu ganhei mais uma heroína na vida.

domingo, 23 de novembro de 2014

Quando você vier de novo

Quando você vier de novo, a gente vai para o parque Vale Verde.
Vou te apresentar as meninas que fazem o projeto Chão que eu Piso, pelo qual você se apaixonou.
Você vai ficar lá em casa, como foi das vezes anteriores. Vai ver Amor, Arroz e Paz.
Quando você vier de novo, vamos ficar mais tempo juntas. Foi uma correria da última vez.
Vamos tomar café com pão de queijo na praça da Liberdade, comer comida mineira, doce de leite e goiabada, como foi na primeira vez que você veio e nos esbaldamos no Xapuri, com frango com quiabo, couve e feijão, antes de nos perdermos na mesa de doces e compotas. Pra finalizar, o cafezinho, que, se faltar, não deixa nem o melhor banquete ficar completo.
Quando você vier de novo, podemos fazer outros ensaios fotográficos, como aqueles na orla da Pampulha ou no Museu Abílio Barreto. Fazer outra namoradeira. Quer outra janela para posar como namoradeira? Você ficou um encanto lá no casarão.
Quando você vier de novo, vamos sair pra dançar. Ah, acho que a gente tem de fazer uma lista dos lugares que você ainda não conhece em BH, né? Agora são poucos.
Vamos tentar encontrar todo mundo junto, pra conversar e rir junto, tomar o vinho de que você gosta, ou até uma cervejinha.
Vamos passear no Mercado Central e comprar queijo, comer abacaxi em pé e tirar fotos para postar no Instagram.
Vamos ouvir muita música, quem sabe ouvir Gal Costa, uma musa sua, coisa que ainda não fizemos.
Vou procurar outro artista mineiro para te apresentar e te dar de presente uma descoberta pra levar para SP, como foi quando você conheceu o Inimá de Paula.
Vamos andar pela cidade, subir esses morros e, à noite, dançar forró, para acordar no dia seguinte com as pernas doendo.
Vai ter Carnaval. Você vem para o Carnaval? Lembra da ideia de fazermos um bloquinho? Na verdade, dois bloquinhos. Quem sabe não colocamos, enfim, em prática?
Quando você vier de novo, quero dar um jeito de te levar para conhecer o Mineirão. Das últimas vezes, não deu para a gente fazer isso. Queria tanto que você visse o maior de Minas em campo – tomara que não seja contra o seu Timão.
Quando você vier de novo, vou preparar o seu quarto, deixar chocolates, músicas para você ouvir e pedir para os gatinhos serem muito carinhosos com você. Principalmente nas horas em que eu não estiver em casa.
Quando você vier de novo, ainda vamos ter muito o que fazer e, como sempre, sua agenda vai ficar lotada.
Eu sei que você não vem de novo, mas neste momento queria pensar que, em breve, você volta a BH, como sempre planejava, porque você sempre estava voltando. Numa das nossas últimas conversas, você disse: “amo vir pra cá, sou sempre tão bem tratada!”. Você estava aqui, e nós, eu e meus amigos que você lindamente conquistou, é que estávamos felizes com a sua presença, na despedida, já esperando a sua volta. Você trazia carinho e doçura para nós.
Eu sei que você não vem de novo, mas queria te dizer que você deixou aqui um lugar que é seu. E vai ser pra sempre, com todo o nosso amor.
Muita saudade, flor.

À minha amiga amada Priscila Tieppo, que não vai vir de novo. Amiga, é difícil enfrentar essa ausência sua.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O roubo da empregada

É só pensar em uma escadinha de amigas. Cinco. Como não me lembro direito da idade de cada uma, a gente supõe que era assim: 9, 10, 11, 12 e 14. Se não é, para esta história, fica sendo. Só para ajudar a visualizar a cena. As cinco eram conversadas, dessas meninas que abrem o bico fácil com qualquer pessoa na rua.
Pois bem, as cinco fizeram amizade com a moça da padaria e com a empregada de uma vizinha da rua de cima. O que tem uma coisa com a outra? Só esperar um pouquinho. Conversa vai, conversa vem, o que as cinco amigas descobriram? Que a empregada da vizinha da rua de cima não estava satisfeita no trabalho, sofria maus-tratos, ela contava. Era mocinha nova, do interior, que sabe-se lá como veio parar em Belo Horizonte para morar e trabalhar na casa da tal patroa. Nesses esquemas herdeiros daqueles tempos da escravidão. Do outro lado, descobriram que a moça da padaria, de quem elas gostavam muito, queria o quê? Isso mesmo: uma empregada, também para morar na casa dela. Bingo! Juntaram dois e dois e decidiram fazer a união das duas.
A questão era como. Pensaram, planejaram uma data, uma hora e uma fuga estratégica. E, assim pensado, no momento decidido e acordado com ambos os lados, foram executar o plano. Era noite de não sei que dia em qual mês e ano. Bateram campainha na casa da vizinha da rua de cima. A própria atendeu. “Somos amigas de fulana, moramos na rua de baixo. Queremos conversar com ela um pouquinho”. Chegou a empregada. Deram um tempinho, até a patroa subir para a casa e se esquecer um pouco das seis. Então, fecharam o portão e saíram correndo, puxando a mocinha pela mão. Ainda ouço o tá-tá-tá das sandálias de plástico no asfalto, sinto a euforia, o medo e alegria daquele roubo, ou seria furto? Rapto talvez... A patroa chegou até o portão e viu as seis correndo. Acho que gritou alguma coisa, mas, aí, já era. Estavam longe e correndo muito.
Em um beco próximo, as cinco amigas encontraram a moça da padaria, que pegou a empregada nova pela mão e deu no pé com ela, parece que havia um carro na parada, ou seria ônibus? Daí em diante, não se sabe o que aconteceu com uma e outra e a outra que ficou sem a empregada. As cinco amigas ficaram bem orgulhosas de si, com fé de terem feito a melhor ação de todas as suas vidas (sem pensarem que a troca foi de seis por meia dúzia). E certas de terem realizado o roubo do século.

Dedicado à Gi, a amiga que participou do roubo do século. Eu, minha irmã, Ni, a amiga Gir (irmã da Gi) e a amiga Tiane fomos as outras participantes da ação. Do plano onde está, Gi, você deve estar rindo dessas lembranças. Querida, você está para sempre com gente.

Legenda por idade:
9 = eu
10 = Gi
11 = Ni
12 = Gir
14 = Tiane

O marido

À espera do segundo ônibus que me levaria para a praia de Gaibu, que fica a quase duas horas de Boa Viagem, alguns personagens ajudavam a fazer o tempo passar. O homem do suco de cana, que trocou a engenharia pelo seu próprio engenho, o taxista que “aluga” o cartão do Vem, que é o passe dos coletivos de Recife, e a moça esperta que compra a garapa do amigo engenheiro e dono de engenho. Todos ficam, então, “arretados” com o homem que passa rente ao meio-fio, à frente de uma mulher, e diz, em alto e bom som, com voz grave e sem nenhuma gentileza: “bora, mulher! Anda!”. A moça esperta: “ah, se marido meu fala assim comigo...”. E os dois homens que estavam no ponto acham absurdo o trato, afirmam que afirmam que a mulher é que tem de gritar com o homem, mandar no homem. Essas coisas.

A história acabaria assim se o tal marido não voltasse em minutos para comprar um lanche para a mulher, que continuava andando atrás dele. “Ela tá com fome. Dê um desse aí pra ela”. A mulher, de quem eu não ouvi a voz, só um miadinho bem baixo e indecifrável, se senta, come a coxinha, fuma um cigarro, e o marido só assiste a isso, depois de pagar o lanche. O ônibus chega, a fila se forma. Eu fico por último, esperando todo mundo se acomodar para entrar. O marido para na porta do ônibus e faz um bloqueio para que as mulheres entrem primeiro. Olha pra mim, no final da fila, e diz: “você não vem, não, moça?”. Eu digo que sim, mas que estava esperando a fila. Ele: “não, pode entrar, eles esperam”. Ok, entrei. E eles esperaram mesmo, sem reclamar.

Chegamos a Gaibu. Cada um vai pra seu lado. Sento em uma cadeira bem na frente da praia, peço um arrumadinho e um suco. Não tem, vem Coca-Cola mesmo. Quando estou terminando, o marido e a mulher que mia chegam. Sentam-se à minha frente. Ele logo para um vendedor de camarão, compra uma porção, que vem num potinho pequeno de plástico. Ele diz: “não, me dê esse outro aí”. Queria aquele maior, que é quase um pratinho mais fundo. Tira tudo do potinho menor, vira no maior, que o vendedor lhe deu, calado, sem reclamar, e diz: “pronto, agora vai ficar tudo bonitinho, arrumadinho”, com toda satisfação.

Continuo sem ouvir a voz da mulher, somente miados bem distantes. O marido pergunta que cerveja ela quer. Ao ouvir a resposta, pede uma Skol – imagino que tenha sido o que ela falou. Depois, vira-se já para outro vendedor, de caldinho dessa vez. Pede um. Custa R$ 5, mas ele diz que vai pagar R$ 2. O vendedor aceita. Não só isso. O marido pede, ainda, pimenta, azeite e molho de alho. Coloca no caldinho – que também é para a mulher – e na porção de camarão. O vendedor só olha e não reclama.

Pronto, comidas postas à mesa e temperadas, harmonizadas com cerveja. Vendedores afastados, uma vista de encher os olhos e o barulho do mar. Hora de namorar. Ele coloca camarão na boca dela. Ela repete o gesto. E, entre um camarão e outro, trocam beijinhos na boca. Continuo sem saber qual era a voz dela e, cansada de espiar o casal e tentar entender aquele homem, levanto, pago o arrumadinho e a Coca, vou embora. Sei só que eu, a mulher, a fila de homens e os três vendedores, todos nós obedecemos ao marido. E ainda não sei o porquê.