domingo, 23 de novembro de 2014

Quando você vier de novo

Quando você vier de novo, a gente vai para o parque Vale Verde.
Vou te apresentar as meninas que fazem o projeto Chão que eu Piso, pelo qual você se apaixonou.
Você vai ficar lá em casa, como foi das vezes anteriores. Vai ver Amor, Arroz e Paz.
Quando você vier de novo, vamos ficar mais tempo juntas. Foi uma correria da última vez.
Vamos tomar café com pão de queijo na praça da Liberdade, comer comida mineira, doce de leite e goiabada, como foi na primeira vez que você veio e nos esbaldamos no Xapuri, com frango com quiabo, couve e feijão, antes de nos perdermos na mesa de doces e compotas. Pra finalizar, o cafezinho, que, se faltar, não deixa nem o melhor banquete ficar completo.
Quando você vier de novo, podemos fazer outros ensaios fotográficos, como aqueles na orla da Pampulha ou no Museu Abílio Barreto. Fazer outra namoradeira. Quer outra janela para posar como namoradeira? Você ficou um encanto lá no casarão.
Quando você vier de novo, vamos sair pra dançar. Ah, acho que a gente tem de fazer uma lista dos lugares que você ainda não conhece em BH, né? Agora são poucos.
Vamos tentar encontrar todo mundo junto, pra conversar e rir junto, tomar o vinho de que você gosta, ou até uma cervejinha.
Vamos passear no Mercado Central e comprar queijo, comer abacaxi em pé e tirar fotos para postar no Instagram.
Vamos ouvir muita música, quem sabe ouvir Gal Costa, uma musa sua, coisa que ainda não fizemos.
Vou procurar outro artista mineiro para te apresentar e te dar de presente uma descoberta pra levar para SP, como foi quando você conheceu o Inimá de Paula.
Vamos andar pela cidade, subir esses morros e, à noite, dançar forró, para acordar no dia seguinte com as pernas doendo.
Vai ter Carnaval. Você vem para o Carnaval? Lembra da ideia de fazermos um bloquinho? Na verdade, dois bloquinhos. Quem sabe não colocamos, enfim, em prática?
Quando você vier de novo, quero dar um jeito de te levar para conhecer o Mineirão. Das últimas vezes, não deu para a gente fazer isso. Queria tanto que você visse o maior de Minas em campo – tomara que não seja contra o seu Timão.
Quando você vier de novo, vou preparar o seu quarto, deixar chocolates, músicas para você ouvir e pedir para os gatinhos serem muito carinhosos com você. Principalmente nas horas em que eu não estiver em casa.
Quando você vier de novo, ainda vamos ter muito o que fazer e, como sempre, sua agenda vai ficar lotada.
Eu sei que você não vem de novo, mas neste momento queria pensar que, em breve, você volta a BH, como sempre planejava, porque você sempre estava voltando. Numa das nossas últimas conversas, você disse: “amo vir pra cá, sou sempre tão bem tratada!”. Você estava aqui, e nós, eu e meus amigos que você lindamente conquistou, é que estávamos felizes com a sua presença, na despedida, já esperando a sua volta. Você trazia carinho e doçura para nós.
Eu sei que você não vem de novo, mas queria te dizer que você deixou aqui um lugar que é seu. E vai ser pra sempre, com todo o nosso amor.
Muita saudade, flor.

À minha amiga amada Priscila Tieppo, que não vai vir de novo. Amiga, é difícil enfrentar essa ausência sua.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O roubo da empregada

É só pensar em uma escadinha de amigas. Cinco. Como não me lembro direito da idade de cada uma, a gente supõe que era assim: 9, 10, 11, 12 e 14. Se não é, para esta história, fica sendo. Só para ajudar a visualizar a cena. As cinco eram conversadas, dessas meninas que abrem o bico fácil com qualquer pessoa na rua.
Pois bem, as cinco fizeram amizade com a moça da padaria e com a empregada de uma vizinha da rua de cima. O que tem uma coisa com a outra? Só esperar um pouquinho. Conversa vai, conversa vem, o que as cinco amigas descobriram? Que a empregada da vizinha da rua de cima não estava satisfeita no trabalho, sofria maus-tratos, ela contava. Era mocinha nova, do interior, que sabe-se lá como veio parar em Belo Horizonte para morar e trabalhar na casa da tal patroa. Nesses esquemas herdeiros daqueles tempos da escravidão. Do outro lado, descobriram que a moça da padaria, de quem elas gostavam muito, queria o quê? Isso mesmo: uma empregada, também para morar na casa dela. Bingo! Juntaram dois e dois e decidiram fazer a união das duas.
A questão era como. Pensaram, planejaram uma data, uma hora e uma fuga estratégica. E, assim pensado, no momento decidido e acordado com ambos os lados, foram executar o plano. Era noite de não sei que dia em qual mês e ano. Bateram campainha na casa da vizinha da rua de cima. A própria atendeu. “Somos amigas de fulana, moramos na rua de baixo. Queremos conversar com ela um pouquinho”. Chegou a empregada. Deram um tempinho, até a patroa subir para a casa e se esquecer um pouco das seis. Então, fecharam o portão e saíram correndo, puxando a mocinha pela mão. Ainda ouço o tá-tá-tá das sandálias de plástico no asfalto, sinto a euforia, o medo e alegria daquele roubo, ou seria furto? Rapto talvez... A patroa chegou até o portão e viu as seis correndo. Acho que gritou alguma coisa, mas, aí, já era. Estavam longe e correndo muito.
Em um beco próximo, as cinco amigas encontraram a moça da padaria, que pegou a empregada nova pela mão e deu no pé com ela, parece que havia um carro na parada, ou seria ônibus? Daí em diante, não se sabe o que aconteceu com uma e outra e a outra que ficou sem a empregada. As cinco amigas ficaram bem orgulhosas de si, com fé de terem feito a melhor ação de todas as suas vidas (sem pensarem que a troca foi de seis por meia dúzia). E certas de terem realizado o roubo do século.

Dedicado à Gi, a amiga que participou do roubo do século. Eu, minha irmã, Ni, a amiga Gir (irmã da Gi) e a amiga Tiane fomos as outras participantes da ação. Do plano onde está, Gi, você deve estar rindo dessas lembranças. Querida, você está para sempre com gente.

Legenda por idade:
9 = eu
10 = Gi
11 = Ni
12 = Gir
14 = Tiane

O marido

À espera do segundo ônibus que me levaria para a praia de Gaibu, que fica a quase duas horas de Boa Viagem, alguns personagens ajudavam a fazer o tempo passar. O homem do suco de cana, que trocou a engenharia pelo seu próprio engenho, o taxista que “aluga” o cartão do Vem, que é o passe dos coletivos de Recife, e a moça esperta que compra a garapa do amigo engenheiro e dono de engenho. Todos ficam, então, “arretados” com o homem que passa rente ao meio-fio, à frente de uma mulher, e diz, em alto e bom som, com voz grave e sem nenhuma gentileza: “bora, mulher! Anda!”. A moça esperta: “ah, se marido meu fala assim comigo...”. E os dois homens que estavam no ponto acham absurdo o trato, afirmam que afirmam que a mulher é que tem de gritar com o homem, mandar no homem. Essas coisas.

A história acabaria assim se o tal marido não voltasse em minutos para comprar um lanche para a mulher, que continuava andando atrás dele. “Ela tá com fome. Dê um desse aí pra ela”. A mulher, de quem eu não ouvi a voz, só um miadinho bem baixo e indecifrável, se senta, come a coxinha, fuma um cigarro, e o marido só assiste a isso, depois de pagar o lanche. O ônibus chega, a fila se forma. Eu fico por último, esperando todo mundo se acomodar para entrar. O marido para na porta do ônibus e faz um bloqueio para que as mulheres entrem primeiro. Olha pra mim, no final da fila, e diz: “você não vem, não, moça?”. Eu digo que sim, mas que estava esperando a fila. Ele: “não, pode entrar, eles esperam”. Ok, entrei. E eles esperaram mesmo, sem reclamar.

Chegamos a Gaibu. Cada um vai pra seu lado. Sento em uma cadeira bem na frente da praia, peço um arrumadinho e um suco. Não tem, vem Coca-Cola mesmo. Quando estou terminando, o marido e a mulher que mia chegam. Sentam-se à minha frente. Ele logo para um vendedor de camarão, compra uma porção, que vem num potinho pequeno de plástico. Ele diz: “não, me dê esse outro aí”. Queria aquele maior, que é quase um pratinho mais fundo. Tira tudo do potinho menor, vira no maior, que o vendedor lhe deu, calado, sem reclamar, e diz: “pronto, agora vai ficar tudo bonitinho, arrumadinho”, com toda satisfação.

Continuo sem ouvir a voz da mulher, somente miados bem distantes. O marido pergunta que cerveja ela quer. Ao ouvir a resposta, pede uma Skol – imagino que tenha sido o que ela falou. Depois, vira-se já para outro vendedor, de caldinho dessa vez. Pede um. Custa R$ 5, mas ele diz que vai pagar R$ 2. O vendedor aceita. Não só isso. O marido pede, ainda, pimenta, azeite e molho de alho. Coloca no caldinho – que também é para a mulher – e na porção de camarão. O vendedor só olha e não reclama.

Pronto, comidas postas à mesa e temperadas, harmonizadas com cerveja. Vendedores afastados, uma vista de encher os olhos e o barulho do mar. Hora de namorar. Ele coloca camarão na boca dela. Ela repete o gesto. E, entre um camarão e outro, trocam beijinhos na boca. Continuo sem saber qual era a voz dela e, cansada de espiar o casal e tentar entender aquele homem, levanto, pago o arrumadinho e a Coca, vou embora. Sei só que eu, a mulher, a fila de homens e os três vendedores, todos nós obedecemos ao marido. E ainda não sei o porquê.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Testimonial

São dez anos juntos, grudados, um fazendo parte do outro. Se bem que, nos últimos anos, a gente não tem se encontrado tanto. Coisas da vida, né? Outras pessoas vão chegando, outros compromissos. Mas nem por isso eu te esqueci ou passei a gostar menos de você. Tudo o que você representou na minha vida continua valendo e vai para sempre comigo. Os primeiros passos num mundo que eu ainda desconhecia, de tantas conexões possíveis, de communities de todos os tipos.

Você me ajudou a me abrir mais para as pessoas, contar as minhas coisas com menos medo. Passei por algumas confusões por causa disso, mas, olha, serviu (e muito!) como aprendizado. Fez com que outras pessoas me dissessem várias coisas que eu não sabia que elas viam em mim. Rsrsrsrs... Até hoje eu fico me perguntando se eu sou aquelas coisas mesmo...

Você foi mais que um amigo para mim nesse período. Foi um companheiro, um parceiro, um amor, aceitou tantos desabafos, fez meu coração tremer tantas vezes e aliviou algumas angústias. Um simples scrap já poderia mudar meu humor durante o dia. Por falar em humor, inesquecível o seu “humor do dia”. Poxa, tinha coisa que batia direitinho. Parecia que você tinha lido meus pensamentos. Tinha?? Ai, como a gente é bobo às vezes!

Eu queria, de novo, te pedir desculpas pelas vezes em que fiquei sumida ou que até excluí você da minha vida. Sempre há uma razão. Não é que foi uma troca por outra parceria mais interessante, mesmo sendo, mas é que a gente age por conveniência mesmo – estou sendo extremamente sincera agora. Espero que você me perdoe e me entenda. Você está para sempre no meu coração, ainda que eu esteja committed com outro. Não te esquecerei jamais. Obrigada por tudo, Orkut.

Orkut

* 24/1/2004

+ 30/9/2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fique longe de nós

Torço para que, àquela altura da noite de domingo, já entrando a madrugada, a audiência estivesse baixíssima. Que o número de pessoas sentadas nos sofás de casa tenha sido o mínimo. Que a “família” brasileira estivesse dormindo. Que os amantes estivessem se amando, de todas as formas, gêneros, números e graus. Que qualquer coisa fosse mais importante e tirasse as pessoas de frente à televisão. Assim, elas não veriam a agressão ao vivo e em cores no debate dos presidenciáveis organizado pela TV Record. A agressão que machucou, que feriu, que assustou, que deixou a gente incrédulo.

Até pouco tempo, o candidato do bigode, já figura tão conhecida do eleitorado brasileiro, devido às 12 eleições que disputou – todas com votação pífia, insuficiente para que fosse eleito –, era, para mim, o “viajante solitário de ideias mirabolantes”. Aqui, neste espaço mesmo, eu dei essa “denominação” a ele devido às ideias incríveis que apresentava, como o famoso aerotrem.

Nunca foi agressivo você ter ideias incríveis e irrealizáveis, embora estivesse, de certa forma, tentando enganar os eleitores. Ok, é perdoável, até porque você jamais seria eleito a qualquer coisa – pensamento do eleitor.

Nunca foi agressivo você ter ideias conservadoras, assim como também não podem ser as ideias progressistas. A democracia dá o direito de expressão, para todos os lados.

Até quando você disse que iria “bombardear uma adversária”, não foi agressivo, foi levado para o lado jocoso, cômico, que é o que você passou a ser para os eleitores e para os telespectadores: a comédia, a garantia de risos com as pérolas que lançava.

Você deixou de ser cômico e engraçado. E perdoado. Ainda que, por toda a vida, tenha tido ideias absurdas sobre as relações homoafetivas, se não queria ampliar um pouco a mente, você deveria tê-las guardado para si. Jamais usar o espaço democraticamente cedido a você, mesmo com a baixa expectativa de voto que tem, para destilar ódio contra qualquer pessoa ou grupo.

É de você e de pessoas que alimentam a violência contra o outro que queremos distância. Você e pessoas como você fazem os meus amigos, as pessoas que eu amo e tantos desconhecidos que eu respeito serem rejeitados em casa e na sociedade, apanharem na rua, terem de viver escondidos e serem abolidos do mapa social em muitas questões e direitos.

Eu não gosto mais de você. Eu quero que você perca pela 12ª vez nas urnas, que continue sendo um viajante solitário de ideias mirabolantes, mas que agora receba pelo menos 1% da hostilidade que as pessoas atacadas por você sofrem na pele. Que você continue gastando seu dinheiro à toa nas campanhas. Reme, reme para chegar a lugar nenhum. Que, quando você for à Mutum, cidade mineira onde você nasceu, as pessoas gargalhem na sua cara. Que, ao se sentar em um restaurante ou sorveteria – um típico programa da família brasileira –, quem estiver ao lado se levante e olhe torto para você e seus familiares.

Se passar uma vez por uma dessas situações, pode ser que você pense um pouco no que anda disseminando por aí, porque pensar parece ser coisa que você não tem feito, embora conste que você é jornalista e publicitário. E, se pensar e ver que a luta tem de ser por mudanças, por aceitação das diferenças, por respeito e amor ao próximo, por proteção das pessoas e pelo direito à vida e a à integridade física e moral, pode ser que um dia perdoemos você de novo. Agora, exatamente agora, estamos magoados e queremos distância de você.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A ela

Toda vez que eu passo por ela, eu a vejo trabalhando. Forte, de braços com músculos definidos, ela não poupa o físico que possui ou que desenvolveu/buscou ao longo da vida: lava carros o dia inteiro. Nos intervalos de almoço, faz entrega de marmita. Quando encerra a jornada de lavar carros, vai entregar mais marmitas. Carrega, nas costas, alguns quilos, a comida dos clientes. O que mais ela leva nas costas? Um rastro de preconceito, a discriminação que deve receber a cada esquina?
Possivelmente, ela já foi alvo de muitos olhares tortos. Usa cabelo raspadinho, o que exibe o rosto bem-desenhado que possui. Não se veste de maneira feminina, dentro do "padrão". Mantém a autenticidade, não se desvirtua do que é, exerce as atividades em que acredita que se sai bem. E trabalha, trabalha. Dia e noite, de uma forma admirável.
Em uma das suas entregas de marmitas, eu digo: “como você trabalha, hein, menina? Vai ficar rica!”. Ao que ela me responde, de um jeito tímido, meio cabisbaixa, sem olhar diretamente nos olhos: “rica, não precisa, mas, passar fome, eu não passo. Trabalho, tem muito por aí, quem fala que não tem tá mentindo”.
Com a energia e a vontade de trabalhar que tem, ela não vai passar fome, não. E, se há quem a olhe torto, pelo que ela é, como se veste ou o que faz, há um mundo que a admira.
E eu te admiro imensamente. Queria ter te falado isso na nossa conversa rápida entre marmitas. Não falei, mas acho que você entendeu. Parabéns, ela!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Vazio

O que vem depois da cura?
E agora, o que mais fazer?
Pelo que lutar?
O que buscar depois da cura?
Qual é o próximo plano?
O que fazer para não sentir saudade de quando a cura era a meta?
Como não pensar que sofrer de amor é melhor que ser curado dele?

Insônia

Não é só uma sensação.
O dia acabou, e você sabe que não o viveu o suficiente.
Você não o viveu.
Não adianta não dormir.
Ele se foi.
Não há pestanas abertas nem olhos abertos que o segurem.
Você já o perdeu.

Fim

Finda o dia
Fim do dia

Fim do dia
Finda a vida

quinta-feira, 28 de agosto de 2014